Opinião

Pode a Europa renascer?

Pode a Europa renascer?

1. À direita do tronco desnudado, de uma chaga aberta pela lança, escorre o sangue ainda fresco.

Os soldados, armados, vencidos pelo sono e o cansaço da longa vigília, cabeceiam sentados no chão junto ao sepulcro. Ele, determinado a viver, ergue-se pelo seu próprio pé e, empunhando uma bandeira, prepara-se para abandonar o túmulo onde fora sepultado. Uma auréola de santidade, sobre a cabeça, substitui a coroa de espinhos. Olhando-nos de frente, o rosto severo exprime a determinação de viver. Foi assim que Piero della Francesca, o pintor do Renascimento europeu, representou a Ressurreição (*) num mural de Arezzo, Itália, por meados do século XV, na agonia do Império Romano do Oriente. Os seus estudos sobre a "perspetiva" iriam inspirar, no século XX, Picasso, Braque e o aparecimento do cubismo.

2. No belíssimo texto publicado pelo jornal "Diário do Minho", Eduardo Jorge Madureira justifica a escolha de "A Ressurreição" para ilustrar este "Domingo de Páscoa": "A obra-prima de Piero della Francesca não tem uma datação precisa, mas os especialistas julgam que poderá ter sido realizada entre 1450 e 1465 numa parede que foi destacada e instalada no Palazzo del Governo em Borgo Sansepolcro, em Arezzo. Em 1944, durante a II Guerra Mundial, um jovem oficial britânico, Anthony Clarke, que tinha sido incumbido de bombardear a cidade italiana que se supunha estar repleta de nazis, tendo lido as páginas de "Along the road - notes and essays of a tourist" (1922), em que Aldous Huxley justifica o singular encómio de "a melhor pintura do Mundo", decide desobedecer às ordens que recebera de modo a poupar Sansepolcro e a Ressurreição."

3. A exaltação da vida, da beleza e da esperança, no artigo de Eduardo Jorge Madureira, conjuga três narrativas redentoras de três eras diversas e distantes: primeiro, a bíblica, com o relato da Ressurreição de Cristo. Segundo, o reconhecimento da genialidade da obra-prima de um homem do Renascimento - Piero della Francesca. Terceiro, a insubordinação de Anthony Clarke quando, inspirado pela leitura de Aldous Huxley, se recusa a bombardear o Borgo Sansepolcro ocupado pelos nazis, para salvar o mural de Piero della Francesca e o povo da cidade, durante a II Guerra Mundial.

4. Que a Europa encontre, nesta primavera absurda de dor e de sombras, a inspiração que lhe falta para vencer o medo, a doença, a desconfiança, o calculismo mesquinho e os fantasmas de um passado carregado de memórias de sangue e de miséria. E que saiba reinventar toda a força que precisa para restaurar a generosidade e a esperança, a alegria e a solidariedade indispensáveis para se salvar e para renascer.

(*)"La Resurrezioni", de Piero della Francesca, está disponível em: www.museocivicosansepolcro.it/en/opere/piero-della-francesca/resurrezione

Deputado e professor de Direito Constitucional

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