Opinião

Por um instante de fama...

Por um instante de fama...

O século XXI, até agora, anunciou a sua originalidade com um fenómeno inédito: é hoje possível sabermos quase tudo de quase toda a gente graças à rápida vulgarização das inovações tecnológicas realizadas no âmbito da recolha, armazenamento, disseminação e cruzamento de informações.

E enquanto crescia a atenção e o exercício da observação dos outros, crescia também a disponibilidade para a revelação e a exibição dos eventos mais íntimos da vida de cada um. Deste jeito, o pudor, a distância e o segredo perderam o valor que outrora lhes era reconhecido embora se soubesse que foi o mistério, desde sempre, a chave da sedução. A consagração da transparência como valor fundamental dos sistemas políticos contemporâneos não fez mais do que transpor para o espaço público essa exigência banal que, pela sua própria natureza, é radicalmente insaciável: a curiosidade.

A nudez dos factos - verdadeiros ou falsos - dispensa intérpretes e maçadoras mediações. A representação democrática e a natureza do mandato popular afiguram-se questões supérfluas, meras oportunidades de mistificação. A responsabilidade e a prestação de contas perdem o seu sentido original em benefício da verificação objetiva da regularidade de condutas prescritas e prontamente criminalizadas. A subjetividade foi perdendo a consistência que os filósofos das luzes e o romantismo literário lhe acrescentara. De súbito, o que antes liminarmente se reconheceria como bizarro, tosco, grosseiro ou brutal tornou-se a expressão irrefutável do mais genuíno e verdadeiro. E assim, inesperadamente, conquistaram fama e glória candidatos improváveis como Nigel Farage, Jair Bolsonaro e Donald Trump. O que mais importa já não é o que prometem e o que cumprem, o que eles digam ou que se contradigam. É pelo modo como dizem que é aferida a autenticidade que os legitima.

Para o descrédito dos mecanismos de construção da confiança que sustentava as fórmulas tradicionais do poder contribuíram, obviamente, outros fatores: - os eleitores foram confinados às falsas alternativas geradas pelo rotativismo dos partidos do "centro"; a dramatização patética do contraditório parlamentar diluiu o contraste entre os conteúdos discursivos do Governo e da Oposição; a autonomia estadual decaiu continuamente face à crescente interdependência no quadro da economia globalizada; as alterações climáticas, o terrorismo internacional e, agora, as pandemias vieram por fim comprometer o nosso destino com causas, de algum forma, transcendentes.

A insegurança e o medo sempre aproveitam aos demagogos mais infames. O combate ao populismo não carece de diálogo com os demagogos. Reclama, sim, distância sanitária, verdade e autoridade democrática!

Deputado e professor de Direito Constitucional

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