Opinião

Presidenciais 21 - O triunfo da covid

Presidenciais 21 - O triunfo da covid

Sem margem para dúvidas! Marcelo Rebelo de Sousa alcançou a legitimidade constitucional que buscava para o seu último mandato desde o primeiro dia do que agora acabou.

E prolonga, assim, por meio século, a tradição de dois mandatos presidenciais consecutivos na história da II República, à semelhança dos antecessores, Cavaco, Sampaio, Soares e Eanes. Mas trata-se de uma continuidade histórica enganadora porque sugere uma harmonia inexistente, uma aparência de estabilidade política forjada pela convergência meramente acidental de expectativas divergentes e interesses conflituantes.

Logo no seu ato inaugural, há 10 anos, Cavaco reeleito rompia a solidariedade que nunca negara a Sócrates, no mandato anterior. Condescendente com as ambições de Barroso, Sampaio não esperou sequer um ano para demitir o sucessor que aceitara nomear. Soares, ainda antes de deixar a presidência, teve a alegria de ajudar à despedida de Cavaco. E de todos os equívocos dessa estranha coabitação que dá pelo nome de semipresidencialismo, ficou a memória original das penosas atribulações do "eanismo".

A recondução do atual presidente ocorreu num cenário de absoluta exceção! A bizarria foi explicada por ele próprio quando, já no final da campanha, temendo o desastre de uma inédita abstenção, dramatizou a hipótese de ter de enfrentar uma segunda volta, invocando o estado da emergência que ele mesmo decretara na expectativa de que lhe facilitaria a vitória. E o vírus ganhou, confirmando todas as previsões e reconduzindo um candidato sem outro programa além dos afetos generosamente prodigalizados...

Foi uma campanha cinzenta, pífia, manietada pelo estado de exceção e atormentada pela doença omnipresente. A vontade popular escrutinada não rasgou caminhos nem apontou rumos novos, acumulando incertezas e ambiguidades que envolvem em denso nevoeiro o destino coletivo. Entre as forças que, apenas há cinco anos, libertaram o país da miséria imposta pelos mercados financeiros internacionais, prevaleceu agora um sufocante silêncio. E do vazio emergiu o espetro do rancor e da vingança, cavalgando humilhações e todos os descontentamentos.

Contra a resignação, contra a apatia decretada, fez-se ouvir a voz insubmissa de Ana Gomes para denunciar os vícios que enfraquecem o regime e propor alternativas, combater preconceitos e discriminações, exigir mais transparência, mais igualdade, maior partilha do poder, respeito pela natureza, melhor democracia, enfim, para cuidar do Mundo, da República, das pessoas. Em circunstâncias adversas, Ana Gomes marcou a diferença. Valeu a pena!

Deputado e professor de Direito Constitucional

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