Opinião

Prudência e ousadia

Cada nova geração lança um olhar desconfiado a tudo o que encontrou já feito. Seja por ingenuidade, seja por fatalidade, assim tem vindo a acontecer ao longo de décadas sucessivas. Também a minha geração foi a melhor de sempre. Tomamos como se fosse nossa a revolta estudantil de Maio de 1968, em Paris.

Lemos Jean-Paul Sartre, Jack Kerouac, Cohn Bendit e Mao. Conhecemos a exaltação, com Jim Morrisson, Elis Regina ou Buarque. Descobrimos o "free-Jazz" e Jorge Lima Barreto. Frequentamos a "Juventude Musical", ali na Rua da Restauração e, mais tarde, o "CITAC", na Associação Académica de Coimbra. Deslumbramo-nos com o "Amarcord", de Federico Fellini, e com Jean-Luc Godard, em "Pierrot le Fou".

Entramos na Universidade entre os fins da década de 60 e o princípio de 70 e incutimos ao movimento estudantil uma indomável radicalidade. Depois das greves de 1969 na Universidade de Coimbra, não houve mais processos judiciais ou disciplinares arquivados em troca dos "pedidos de desculpa" dos estudantes. Acabamos com a "queima das fitas" e as "praxes dos caloiros", em Coimbra e no Porto. Afrontamos proibições e hesitações diversas para definitivamente inscrever a denúncia da guerra nas "palavras de ordem" das manifestações estudantis. De facto, "o regime" nada tinha para oferecer que estivesse à altura da nossa desmesurada ambição de liberdade, de justiça, de dignidade. Eles tinham-nos roubado o futuro.

Não acredito que a compreensão de fenómenos sociais complexos caiba por inteiro nas idiossincrasias geracionais. Mas é verdade que a minha geração, provavelmente mais do que outras, experimentou de forma dramática o irrisório das grandes proclamações retóricas, a inconsequência das palavras, o desafio "literal" de "transformar o Mundo", um imperativo de agir à revelia da recomendação de prudência dos mais velhos, tão bem surpreendida naquele admirável texto de Alberto Pimenta:

"Os nossos princípios são: prudência e ousadia. Uma prudência ousada, uma ousadia prudente. Uma prudência que ousa sê-lo, a par de uma ousadia que tem a prudência de não sê-lo. Uma prudência a que não falta a força da ousadia, uma ousadia que ousa não esquecer a lição da prudência. Ousadia quando a prudência o recomenda, prudência quando a ousadia se manifesta".

Evidentemente, as "praxes estudantis" merecem a melhor atenção dos etnólogos, dos antropólogos, dos psicólogos, dos juristas, dos filósofos, psiquiatras e todos os estudiosos das patologias sociais. Não se trata de um trabalho que esteja por fazer: há já excelentes estudos e notáveis documentários a que outros, sem prejuízo, se poderão somar. O que é surpreendente é que autoridades universitárias, forças políticas e até alguns cientistas sociais, em vez de reconhecerem que os esforços até agora realizados se revelaram ineficazes ou insuficientes, pretendam continuar a ignorar o problema. Uma questão de Polícia diariamente exibida nas universidades e fora delas perante os olhos de todos e causa flagrante de incalculáveis ofensas físicas e psíquicas, ou seja:

- as atividades promovidas por estudantes que molestam, estigmatizam, coagem ou potenciam por qualquer forma a discriminação individual ou coletiva de outros estudantes, em particular, dos alunos e das alunas que frequentam o primeiro ano dos cursos de graduação!

A violência física e psicológica infligida aos estudantes mais novos e vulneráveis como espetáculo público de intimidação e subjugação coletiva é ilegal, criminosa e indecente. Continuamos a aguardar a ação competente das autoridades responsáveis.