Opinião

Única e irrepetível

"Única e irrepetível", foi assim que os mais altos responsáveis de várias instâncias da União Europeia se precipitaram a classificar a criação de um imposto sobre os depósitos bancários mal fecharam a negociação das condições exigidas para o resgate da dívida soberana de Chipre.

Foram essas as palavras usadas por Vítor Gaspar, que também participou na reunião dos ministros das Finanças europeus onde se aprovou, por unanimidade, o resgate de mais um país cuja situação se tem vindo a deteriorar gravemente, desde há cerca de um ano, perante a irresponsável indiferença dos parceiros da União.

Não se tratou portanto de uma solução de emergência, pois não faltou tempo para analisar e refletir sobre a crise cipriota e o destino do euro, nem faltou ocasião para ponderar o impacto de tais medidas na economia do país e na vida dos cidadãos, ou até ensejo para antecipar a reação - todavia muito previsível - dos omnipotentes mercados internacionais, tão repetidamente invocados. E a solução que engendraram traduzia-se na criação de um imposto extraordinário sobre os depósitos bancários superiores a 20 000 euros, com o que se pretendia cobrar cerca de cinco mil milhões aos depositantes, para juntar aos dez mil milhões que o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia entretanto se dispunham a emprestar.

É um caso "único e irrepetível"! A medida - rejeitada logo a seguir pelo Parlamento de Chipre, no princípio desta semana - foi descrita como algo "absolutamente singular", apenas admissível no quadro "completamente excecional" da crise cipriota, do particularíssimo sistema bancário daquela ilha mediterrânica e da sua inusitada exposição a depositantes não residentes, russos e britânicos, ao que se diz. Evidentemente, uma solução que jamais se repetiria em qualquer outro lado!

"Única e irrepetível", tal qual a Grécia, alguns anos antes, por causa da sua indolência "absolutamente singular". Devido à dimensão "completamente excecional" que a falsificação sistemática das contas públicas atingiu. Fruto "particularíssimo" de uma colossal economia paralela. Realidades, enfim, que por longo tempo permaneceram invisíveis aos olhos da Europa mas que eram bem conhecidas de um banco - o "Goldman Sachs" - que engenhosamente se ocupou da respetiva "camuflagem".

Para Vítor Gaspar, "está claramente fora de questão que uma solução deste tipo possa ser implementada em Portugal e o mesmo se pode afirmar em relação aos outros países" da moeda única. O problema, "único e irrepetível", é que o sistema bancário de Chipre, afirmou o ministro das Finanças do Governo de Portugal, está "sobredimensionado"! Não foi esse o caso da Islândia, porque quando a sua banca foi à bancarrota nem sequer pertencia à União, nem será o caso da Suíça porque, obviamente, não é uma ilha. Não se referia à dívida soberana da Irlanda, apesar de esta também ocupar parte de uma ilha, porque a banca irlandesa faliu mas, admita-se, os seus depositantes não eram maioritariamente russos. Nem se referia à Holanda, para cujos bancos emigraram as contas das grandes empresas portuguesas, porque com diques e canais, aterros e comportas, se encarregaram os holandeses de, a tempo, "sobredimensionar" o seu próprio país. Nem, muito menos, ousaria referir-se aos bancos alemães, onde os recursos financeiros dos povos da União estarão certamente muito melhor guardados do que em qualquer agência periférica desta admirável União. Talvez pensasse no seu Governo e em cada uma das previsões falhadas que se tornaram indissociáveis do anúncio de cada nova medida de austeridade.

Sim, a situação de Chipre é "única e irrepetível" tal como foi, sucessivamente, a situação da Grécia, da Irlanda, Portugal, Itália ou Espanha. "Única e irrepetível" como esta desgraçada Europa - estúpida, avara e mesquinha - que tão levianamente se apressa pelo caminho da sua própria extinção.