Opinião

Vergonha!

Solomon Northup, protagonista de "12 anos escravo", é um cidadão livre da cidade de Nova Iorque que em 1841 é raptado e levado para Nova Orleães onde o vendem como escravo a um fazendeiro branco. Ali vai padecer durante 12 anos até conseguir que um carpinteiro canadiano de passagem pela fazenda aceite, com algum temor e relutância, comunicar o seu paradeiro aos amigos e familiares que deixou em Nova Iorque e que ignoram o que lhe fizeram. É espantoso o testemunho de dignidade que o escravo nos oferece, confrontado com as mais extremas condições de subjugação. Mas o que, porventura, haverá de mais perturbador no filme de Steve McQueen, é o pacto de silêncio, de indiferença e hipocrisia que durante 12 anos encobre a violação flagrante da ordem legal e constitucional norte-americana vigente, antes da Guerra da Secessão, apesar dos sinais de compaixão e humanidade de alguns dos personagens que se cruzam com Solomon Northup no decurso da sua trágica epopeia.

Partilho a indignação de quantos advogam a criminalização das "praxes estudantis" mas não parece a resposta adequada a tal flagelo. Entre os adeptos e praticantes das "praxes" estudantis, é comum a invocação ingénua de um argumento paradoxal: "A praxe prepara-nos para a vida!". Argumento paradoxal, sobretudo, quando invocado em circunstâncias que efetivamente tornariam mais plausível a conclusão inversa: "A praxe prepara para a morte". Na madrugada de 16 de dezembro, numa praia de Sesimbra, seis estudantes desapareceram, arrastados por uma onda. Um mês depois, continua sem explicação o modo como, concretamente, se produziu tão brutal fatalidade. Apenas se sabe, com segurança, que o insólito encontro juvenil está associado às praxes estudantis e que o véu de ignorância que desceu sobre o caso reflete o pacto de silêncio que habitualmente protege os seus rituais. Também Solomon Northup foi avisado de que devia ocultar a sua verdadeira identidade e a condição de cidadão livre... se quisesse sobreviver!

Há 20 anos que ensino Direito Constitucional aos meus alunos do 1.0 ano da licenciatura em Direito. Foram há muito prevenidos de que não é tolerada a menor manifestação da praxe nas minhas aulas. Apenas uma vez precisei de expulsar da sala dois estudantes com vestígios no rosto de pinturas rituais. Contudo, durante o ano inteiro, na universidade e na cidade, ao sol e à chuva, grupos de estudantes pintam as caras, envergam uniformes de cores garridas, marcham em formatura disciplinada, entoam cantos marciais e, às ordens de um figurão vestido de negro, rebolam-se na lama e compõem coreografias obscenas que irresistivelmente nos evocam as intermináveis orgias de "O lobo de Wall Street", os gritos e os murros no peito, a exaltação da violência, as demonstrações de fidelidade e os rituais de submissão ao chefe, dos corretores da bolsa arrebanhados por Jordan Belfort, no fabuloso filme de Martin Scorsese. A extraordinária fortuna obtida por Belfort na febre especulativa dos anos 80, com apenas 20 e poucos anos, através da fraude e corrupção, é uma história verídica que, apesar da sua exuberância, escapou longos anos à fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários de Wall Street e ao FBI...

As praxes corrompem! Banalizam a humilhação, ministram a aprendizagem da submissão, a velhacaria, o encobrimento, a duplicidade, o aconchego da horda, a força da tribo e a eficácia das hierarquias indiscutíveis, como chaves para o sucesso individual. A própria subsistência das praxes estudantis é uma perversão criminosa, consentida até agora por autoridades universitárias, alguns professores e até familiares dos estudantes. A integração dos novos alunos é um falso pretexto para a cumplicidade perversa das autoridades legítimas com estas redes paralelas e os poderes informais delas emergentes, alheios aos valores da civilidade e da cidadania republicana, do Estado de direito e da democracia constitucional, que promovem a violência nas nossas escolas e universidades. As vítimas irão continuar a multiplicar-se se não houver coragem e determinação bastantes para acabar com este tenebroso pacto de silêncio. Vergonha!

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