Opinião

Vitalina Varela

1. Chama-se Vitalina Varela a mulher que deu nome ao mais recente filme de Pedro Costa, premiado no Festival Internacional de Locarno.

Ela chega de Cabo Verde, pés descalços a descer do avião que a trouxe, uma gota incontinente a deslizar pela perna, como se fosse uma lágrima, um grupo de mulheres, de balde e vassoura, ao fundo da escada, à espera, para lhe dizer que chegou demasiado tarde, que o marido foi enterrado há 3 dias, que não há aqui lugar para ela, que nem sequer a casa dele lhe pertence. Mas Vitalina fica, depois de tantos anos a aguardar pela chamada! Fica no cenário desolado da ruína suburbana habitada por imigrantes como ela, conterrâneos seus, numa obstinação sofrida e silenciosa apenas cortada pelas falas em crioulo, legendadas em português. Não é um filme apologético, de denúncia política ou social, nem um testemunho piedoso, um libelo acusatório. É, apenas, um belo exercício estético sobre a solidão mais extrema e o mais brutal desamparo. Uma viagem, uma parábola, uma revelação: a verdade que jaz no fundo do abismo insondável da alma humana.

2. Outro abismo obscuro abre-se aqui ao nosso lado mas é como se fosse um lugar remoto ou um universo paralelo: - adivinha-se, por perto, uma cidade ordenada, luminosa, cosmopolita. Mas não passa de uma suposição porque deste buraco ninguém sai. Acentuam-se os indícios de uma extensa fragmentação social, um processo regressivo, de refeudalização, que assume expressões culturais diversas. Por exemplo, a justificação das crescentes desigualdades sociais como algo normal e inevitável. O despudorado corporativismo em instituições públicas e agremiações socioprofissionais, sobretudo flagrante quando tratam as questões da justiça ou da saúde. A acrimónia insolente que contaminou o estilo de confrontação política, desacreditando os contendores, as suas causas, a essência da política. A "gentrificação" das cidades por oposição aos territórios com a designação asséptica de "baixa densidade". A discriminação de grupos e comportamentos com rótulos arbitrários, de inspiração étnica ou religiosa: ciganos, africanos ou muçulmanos. As exigências de ordem e de segurança afastam ponderações mais complexas e reclamam processos sumários, a pena de morte. O fascínio digital, as redes sociais, os jovens contra os velhos. O espaço público fracionou-se, emergem novas marginalidades e renascem preconceitos ancestrais.

3. Pedro Costa convida-nos a contemplar a solidão de Vitalina Varela: o silêncio, a amargura, a coragem e uma serena determinação. Força!

*Deputado e professor de Direito Constitucional