Opinião

3700 milhões de erros?

3700 milhões de erros?

Salvar a TAP, sim. Mas para quê? A que custo? Salvar a TAP, sim. Até quando? A que custo? Salvar a TAP, sim. Para quem? E a que custo?

O plano de resgate da companhia aérea apresentado pelo temerário ministro Pedro Nuno Santos está forrado de números (alguns deles surpreendentes, como aquele que nos diz que, em plena sangria de prejuízos, os pilotos foram aumentados em 37%), mas a interrogação afiada continua a pender sobre as nossas cabeças: será que isto vai ser suficiente? Três mil e setecentos milhões de euros de apoios e garantias do Estado até 2024, despedimento de dois mil trabalhadores, cortes salariais violentos, alienação de parte da frota de aviões. Na verdade, ninguém pode responder que esta estratégia de recalibragem será a panaceia para os males sistémicos de uma empresa que foi perdendo mercado, somando prejuízos e que só com muita insistência (e nem mesmo assim) fez um esforço para ser realmente de bandeira, servindo o país no seu todo e não se limitando a viver em função do hub de Lisboa. A TAP que nunca quis ser uma low-cost foi, afinal, engolida pelo preconceito. Pela realidade. E essa talvez possa ser a única boa notícia a tirar de mais este regresso ao futuro deste gigante dos ares: a de que, tornando-se mais enxuto, fique mais próximo dos interesses e necessidades de quem viaja, sem tiques de novo-riquismo e imune a bravatas ideológicas.

A conjuntura, já se sabe, é a pior possível. Para a TAP e para todas as companhias que competem num mercado global. O caminho será o das pedras, mas a alternativa era uma sentença de morte inglória ou uma venda por meia-pataca. Já não há volta. Mas esta viagem, para já, é só de ida. Veremos se haverá volta. Se o Estado recupera parte ou todo o valor empenhado.

Em 2019, a TAP contribuiu com 2,6 mil milhões de euros para as exportações e fez compras de mais de mil milhões de euros a empresas portuguesas. Mas, apesar do seu enorme peso económico, foi sendo mal gerida. Pelo Estado e pelos privados. Este cheque em branco que agora lhe passamos comporta, por isso, muitos riscos. E entre eles um nada negligenciável: o homem que pilota este avião (Pedro Nuno Santos) está em rota de colisão com o homem que pilota o país (António Costa). Ficará, também desta vez, Marcelo Rebelo de Sousa a amparar o choque a partir da torre de controlo de Belém?

*Diretor-adjunto

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