O Jogo ao Vivo

Opinião

A doença e a cura

A doença. Foram semanas de tensão, amuos, negociações, capitulações, efabulações e demarcações. Ano após ano, as danças partidárias antes da aprovação do Orçamento do Estado são exercícios de contorcionismo.

A fragilidade da atual maioria parlamentar apenas potenciou a disformidade de um Parlamento e de um sistema partidário que deixam tudo para o fim. Centenas de alterações e propostas para aprovar num só dia, num corre-corre que se estendeu pela noite, numa sofreguidão legislativa que, não raras vezes, resulta em monumentais trapalhadas e vistosos golpes à 25.ª hora, como aquele que o PSD protagonizou com a estocada madrugadora no Fundo de Resolução, ao impedir que este disponibilizasse, no próximo ano, 476 milhões de euros para o Novo Banco, no âmbito de um contrato firmado pelo Estado português. Rui Rio fez um jogada arriscada, e não é certo que dela não tire dividendos eleitorais. Fê-lo por calculismo, mas também porque o país político continua a permitir que o mais importante documento do Estado seja despachado pela calada, transformando em urgente o que não é essencial e em armas de arremesso partidário o que deveriam ser decisões ponderadas. Não se espantem, por isso, se para o ano houver outra bomba atómica ao cair do pano. O fim é o novo princípio.

A cura. O plano de vacinação para a covid 19 está a ser coerente com as expectativas iniciais: tinha tudo para correr mal e está mesmo a correr mal. Não apenas porque Portugal se atrasou na definição de uma estratégia, como conseguiu, mais uma vez, criar um foco de tensão entre técnicos e políticos em torno das respostas sanitárias. Os especialistas da DGS sugeriram que os maiores de 75 anos ficassem de fora dos grupos prioritários e foram desautorizados, de forma violenta e caricatural, quer pelo presidente da República, quer pelo primeiro-ministro. Das duas uma: ou as sugestões não eram para levar a sério, e então temos um problema, porque aos técnicos não são reconhecidas competências; ou andam a brincar, mais uma vez, à comunicação de crise. Já começa a ser cansativo assistir a isto. Fechem-se numa sala, digam o que têm a dizer uns aos outros e no final comuniquem ao país uma versão única. A gestão da pandemia não pode permanecer refém desta descoordenação. Nove meses não deram para aprender nada?

Diretor-adjunto

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG