Opinião

A emergência somos nós

A emergência somos nós

Um dos aspetos mais confrangedores em torno do ambiente securitário imposto pela pandemia do coronavírus é a consagração, entre alguns dos nossos decisores, de um campeonato que mede o nível de ousadia de cada um na restrição das liberdades e dos movimentos.

Como se exigir a paragem total do país, com tudo o que isso implica de nocivo para o Portugal que sobrevier a esta crise profunda, fosse uma demanda patriótica, transformando nuns bárbaros irresponsáveis os que preferem uma mitigação crescente dos efeitos e apelam à prudência na aplicação de medidas rudes. É verdade que estamos a lidar com uma ameaça nova, que se espraia por territórios inóspitos até para a ciência; é verdade que países como Inglaterra, que abordou inicialmente o surto com uma estratégia liberal, estão a arrepiar caminho para conferir maior poder de intervenção ao Estado. E, por tudo isto, e em particular pela acumulação dos medos, é compreensível que as reações epidérmicas dos cidadãos a uma aparente inoperância do poder político se expliquem com o facto de, na cabeça deles, quanto mais apertado estiver o freio, mais depressa regressamos às nossas vidas. Mas é bom termos consciência do que significa declarar o estado de emergência, por mais sedutora que nos pareça a ideia, e é bom termos a noção de que este domingo longo em que mergulhou a nossa rotina pode durar meses.

Querem melhor exemplo de compromisso natural entre quem decide e quem obedece do que o que está a ser dado pelo Porto? Não foi necessário declarar nenhum estado de emergência para as ruas ficarem desertas, para os cidadãos absorverem o espírito de urgência. A cidade empreendedora e do trabalho captou a mensagem sozinha. A mesma cidade que criou o primeiro centro móvel para rastrear casos suspeitos e que ajudou a montar uma unidade de produção de máscaras.

Por isso, cumpramos o estado de emergência se assim tiver de ser, mas não fiquemos reféns do abraço musculado do Estado para fazermos o nosso papel. E não ignoremos a necessidade imperiosa de manter vivo o tecido económico. Porque nesta guerra coletiva em que não se ouvem as balas e onde até os generais são soldados, o verdadeiro estado de emergência somos nós. Nós e o alcance das nossas ações.

Diretor-adjunto

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