Opinião

A grandeza de Iker Casillas

A grandeza de Iker Casillas

Quando Iker Casillas aterrou no Porto, em 2015, todos sabíamos quem ele era. Aos 34 anos, carregava nas luvas um vastíssimo currículo de títulos e de prestações desportivas ao mais alto nível. Ainda assim, alguma imprensa espanhola caricaturou a escolha do galático. Vinha para se reformar, tinha desistido de ser ambicioso, estava acabado. Iker devolveu as atoardas com trabalho e tornou-se num cidadão do Porto, do Norte, do país que o acolheu de forma calorosa. E continuou a ganhar.

Quem gosta de futebol (dos golos e das jogadas vividos de forma saudável e genuína e não quem é acometido de devaneios psicóticos que causam cegueira) não pode deixar de sentir alguma tristeza com a partida de um profissional com as qualidades desportivas e humanas de Iker Casillas.

Por aquilo que fez dentro do campo e fora dele, o maior guarda-redes da história de Espanha, como o qualificou o Real Madrid, clube onde debutou com nove anos, terá sempre o nome inscrito na lista dos mais notáveis desportistas a passar pelo nosso país. Pela dimensão planetária que deu a uma Liga com complexos de inferioridade, mas, também, pela projeção turística que emprestou à cidade do Porto e ao Norte, que não se cansava de elogiar.

Iker não nos devia nada. Mas, depois de o coração lhe ter pregado um susto, em 2019, ensinou-nos algo tremendamente simples: que a grandeza de um atleta que consegue viver 30 anos no pico da exigência competitiva também se manifesta nas fragilidades que são de todos nós. Iker, o santo, passou a ser apenas Iker, o pai e marido que preza a vida mais do que tudo o resto. A forma sóbria, digna e respeitosa como passou pelo futebol português merece nota, porque é rara e deve ser replicada. Daqui a uns anos, talvez poucos se recordem que Iker Casillas, guarda-redes idolatrado ao longo dos anos por milhões em todo o Mundo, adorava passear de bicicleta pela Foz do Douro. Mas talvez essa vá ser a sua melhor recordação do Porto: a de uma cidade generosa que permitiu que um ícone planetário pudesse fundir-se na paisagem, tornando-se quase num anónimo.

*Diretor-adjunto

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