Opinião

A Igreja Universal do Reino dos Factos

A Igreja Universal do Reino dos Factos

Há várias estirpes de negacionistas pandémicos.

Enumero quatro: os preguiçosos influenciáveis, que consomem pouca informação, mas alinham o raciocínio justiceiro pelo fel das caixas de comentários do Facebook; os excessivamente informados, que de tantas teorias assimilarem são incapazes de acreditar nas evidências terrenas e preferem transformar a realidade de um vírus altamente mortal numa conspiração das farmacêuticas, do Estado e de forças obscuras que variam todas as semanas; os alienados, que vão para as praças dar as mãos e entoar chavetas filosóficas em virtude da sua enorme falta de ocupação; e os privilegiados, que usam a sua posição social, profissional ou política para apelar à insurreição.

Estes últimos são os mais perigosos, porque têm ascendente institucional sobre o coletivo. Assim se explica, de resto, que o juiz Rui Fonseca e Castro, figura cimeira do movimento Juristas pela Verdade (herdeiro dos famigerados Jornalistas pela Verdade e Médicos pela Verdade), tenha sido suspenso de funções pelo Conselho Superior da Magistratura, depois de várias posições públicas em que apelava à desobediência civil e em resultado de, há dias, ter exigido, em plena sala de tribunal, que os depoimentos fossem feitos sem máscara de proteção. Como é óbvio, um juiz não se representa apenas a si.

Não há uma base social, ideológica ou económica que una esta gente. Os negacionistas ora são informados, desinformados, pobres, ricos, homens, mulheres, velhos e novos. As motivações são distintas, mas o fim é único: acabar com o confinamento custe o que custar.´É verdade que estamos todos cansados de viver numa prisão e os sinais contraditórios dados pela classe política sobre o caminho a tomar ajudam a insuflar o argumentário destes movimentos contestatários. Donde avulta a pergunta: devemos proibi-los? Não, não devemos. Porque numa democracia madura, mesmos os negacionistas primitivos devem poder exercer o seu direito à alternativa. A arma com que devemos combatê-los chama-se realidade. Ademais, o tempo tem provado que até os mais empedernidos militantes desta religião sem salvador acabam derrotados pela Igreja Universal do Reino da Verdade dos Factos.

*Diretor-adjunto

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