Opinião

A liberdade não é isto

A liberdade não é isto

Quando somos sujeitos de forma penosa às mesmas rotinas, qualquer alternativa, por mais excêntrica que seja, tem um efeito de regeneração. É libertador mudar quando nos forçam a repetir tudo durante demasiado tempo. Não admira, por isso, que, por esse Mundo fora, comecem a ganhar lastro mediático os movimentos de negacionistas da pandemia, gente que se insurge contra a realidade sem querer perceber nada do que está a acontecer. Gente capaz de juntar factos, mas que prefere camuflá-los numa capa de insurreição.

O caminho que tomam é o mais apelativo, porque assenta na diabolização primária. Não acreditam porque não aceitam. Tudo à volta rui, mas eles tendem a achar que escapam por entre os escombros com a certeza inabalável dos justos e dos bem-aventurados. A Ciência é um detalhe.

A pandemia mexeu com o nosso corpo, com a nossa cabeça, mas mexeu sobretudo com a nossa liberdade. Quem acharia possível, há um ano, que pudesse haver um decreto presidencial a limitar o barulho que podemos fazer em casa durante o dia para não prejudicar os vizinhos que estão furiosamente a teclar em teletrabalho? É tudo uma questão de perspetiva e calendário. Vistas hoje, as conceções que aceitamos fazer já parecem menos esmagadoras do que nos primórdios. Tendemos a moldar as nossas convicções e espessura moral às necessidades mais básicas. E neste momento elas resumem-se a um conceito: sobrevivência. Sanitária, económica e social. Capitulámos porque entendemos que o sacrifício tinha (tem) um propósito, e mesmo contrariados contribuímos para um bem comum. A vida.

Usar a "Grândola Vila Morena" como banda sonora e apelar à rebelião geral, como voltaram a fazer os donos e clientes do restaurante Lapo, em Lisboa, num misto de festa trendy e reality-show regado a vinho tinto, não tem nada que ver com apego pela liberdade. É apenas egoísmo, falta de humanidade, cegueira e profundo desrespeito para com aqueles que morreram, que lutam para não morrer, que prestam cuidados médicos e que batalham para manter empregos e famílias. Estes negacionistas do Facebook traficam apenas uma parte da verdade. A que lhes dá mais jeito. Liberdade não é isto. Não é cuspir na cara dos outros fazendo perigar a integridade de cada um. O nome que se dá a estas tentações é bem diferente de liberdade. É ignorância.´E aqui não há vacina que nos valha. Só injeções de factos.

*Diretor-adjunto

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