Opinião

A redenção no caso Rendeiro

A redenção no caso Rendeiro

A morte de João Rendeiro na cela de uma prisão sul-africana simboliza não apenas uma tragédia pessoal e familiar, mas também a imagem irrecuperável de um falhanço na aplicação da justiça portuguesa. Mais um, na verdade, num caso que a classe política e a magistratura quiseram elevar, sem ponta de êxito, à condição de exemplo.

Todos estamos recordados do regozijo coletivo após o anúncio da detenção do banqueiro em Durban, três meses depois de ter fugido tranquilamente nas barbas dos juízes. Os quais foram ilibados de qualquer responsabilidade, num veredito tão candidamente lusitano. E todos estamos certamente recordados de como essa estrondosa derrota do sistema judicial - e por inerência da democracia representativa - foi travestida de vitória com o objetivo de serenar os ânimos populares e fazer ruborescer a empalidecida imagem da lei.

É verdade que o processo não se extingue com o desaparecimento súbito do ex-homem forte do BPP, mas há um capítulo, o principal de um caso que se arrasta há mais de uma década, que cessa com esta morte prematura. O da punição, depois do julgamento e condenação, de um banqueiro que lesou não apenas a entidade que ergueu, mas que levou para o fundo milhares de lesados, causando perdas acumuladas a clientes e ao Estado que ascenderam a 1600 milhões de euros. Este caso era, por tudo isto, maior do que este homem.

Rendeiro perdeu a vida, depois de ter perdido a liberdade; perdeu a mulher, depois de ter perdido o poder de influenciar que, durante anos, o fez sentar-se nas mesas mais lustrosas do mercado; perdeu a dignidade, depois de ter perdido o desafogo financeiro que o catapultou na vida. E ia perder agora a advogada, aparentemente porque deixara de poder pagar-lhe. Para onde quer que vá, João Rendeiro poderá encontrar a redenção. O mesmo não podemos dizer da Justiça portuguesa.

* Diretor-adjunto

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