Opinião

A ressaca do número 10

A ressaca do número 10

As notícias que, por estes dias, vamos lendo sobre o emaranhado de mentiras, desculpas esfarrapadas e provas avulsas de desfaçatez do Governo britânico a propósito da organização de festas em Downing Street em períodos de fortes restrições pandémicas vão parecendo mais resquícios criativos da série "The Crown" do que episódios inspirados em factos reais. Mas, no Reino Unido, a verdade é como as garrafas vazias das festas covid: aparece sempre no final.

Boris Johnson negou que o primeiro encontro aditivado a álcool em que participara com staff do seu gabinete tivesse sido uma festa, antes uma reunião de trabalho. Afinal, foi mesmo uma festa. Mas ele não se apercebeu. E pediu perdão ao reino, quando já não lhe restava alternativa. Mas se isto já era grave, se já era o bastante para o Partido Trabalhista exigir a cabeça do líder conservador numa bandeja, a mais recente investigação do jornal "The Daily Telegraph" conduziu o debate para terrenos proibidos: até ao regaço da rainha.

No dia anterior às cerimónias fúnebres do marido da monarca - durante um período de luto nacional, portanto -, tiveram lugar mais dois bem regados convívios no número 10 de Downing Street, desta vez sem a presença de Boris Johnson. Não é por acaso que a popularidade do primeiro-ministro britânico atingiu níveis ridículos. Porque quase todas as notícias sobre esta insanidade política no primeiro país europeu a ultrapassar as 150 mil mortes por covid são ilustradas com a poderosa imagem de Isabel II, sozinha, na igreja, de trajes e máscara negros, a chorar a morte do marido. Boris já provou ser um sobrevivente nato, naquele jeito estouvado que lhe permite esgueirar-se quando tudo à sua volta descamba. Só que a pressão para o empurrar porta fora do número 10 ganhou agora uma tração diferente, mesmo dentro do partido, porque esta espécie de governança em regime de bar aberto causou uma indisfarçável acidez no Palácio de Buckingham. Donde avulta a dúvida: terá Isabel II estômago para mais uma temporada de Boris Johnson?

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*Diretor-adjunto

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