Opinião

ANAni, ANAnão

Tudo está bem quando acaba bem, não é? Lembram-se do vendaval que se levantou no país quando a Câmara de Lisboa anunciou que ia cobrar um euro de taxa a cada turista que "aterrasse" no aeroporto da Portela? De como o Governo PSD/PP aproveitou a boleia e esconjurou o socialista António Costa, acusando-o de matar a galinha dos ovos de ouro da economia? E de como a Câmara da capital se resguardou na evidência de que em várias cidades do Mundo isso já acontecia sem qualquer drama? Pior: estão certamente lembrados de como, ao longo de vários meses de negociação, nunca ninguém percebeu verdadeiramente como ia funcionar esse tão ambicioso imposto que vigora a partir de hoje.

Agora esqueçam tudo o que leram. Num gesto de grande criatividade, a ANA (entidade que gere os aeroportos nacionais, detida pelo grupo privado francês Vinci) e a Câmara de Lisboa anunciaram, a dois dias da entrada em cena da dita tarifa, uma solução próxima do milagroso.

Em torno de um "objetivo comum", como o classificou o vice--presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, referindo-se à projeção do turismo na capital, as partes acordaram que, até ao final do ano, será a ANA a tratar de tudo: liquidação, arrecadação, controlo e fiscalização da taxa. Nenhum turista que visite Lisboa será incomodado com essa chatice que vai render aos cofres municipais entre 3,6 e 4,4 milhões de euros. O dinheiro, esse, será aplicado em "investimentos estruturantes", como a reabilitação do Cais do Sodré e o Campo das Cebolas.

É o céu na terra para António Costa: não só resolveu um problema que politicamente lhe estava a causar embaraço, como viu entrar, como bónus, uma importante receita adicional nos depauperados cofres municipais. Tiro-lhe o chapéu.

A solução encontrada levanta, porém, várias questões. Desde logo, a vocação de uma entidade como a ANA_para financiar, ainda que encapotadamente, um município, a pretexto de, com isso, ajudar o turismo. Depois, a assumida discriminação positiva: porquê ajudar Lisboa e não Cascais? E por que não ajudar o Porto ou Braga, também eles fortes polos de atração do turismo nacional e certamente recetivos a ser apoiados em numerário? Ainda para mais, beneficiários e contribuintes diretos do imparável êxito económico do Aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Alguém me explica o que leva uma empresa privada a despender tanto dinheiro para ajudar um determinado município? Estarão outros voos no horizonte? ANAni, ANAnão, ficas tu e eu não?