Opinião

As marcas que ficam

Se há coisa que a entronização de Mário Centeno na presidência do Eurogrupo nos ensinou é que, em política, tudo se constrói e destrói a uma velocidade inversamente proporcional à da lógica. Há menos de um ano, o ministro das Finanças esteve por um fio no Governo, na dramática avaliação do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa; hoje, é o "cisne resplandecente" que encanta o mesmíssimo presidente da República e nos deixa infantilmente orgulhosos de uma conquista que, em rigor, ninguém consegue prever como será materializada em benefício do país. Ainda assim, só por ortodoxia relutante ou incapacidade crónica na digestão de batráquios é que não se é capaz de reconhecer nesta escolha uma vitória para a diplomacia e a imagem externa de Portugal.

Em certo sentido, este maniqueísmo reativo dos partidos (se é dos meus, é bom; se não é dos meus, não presta) está relacionado com a dificuldade em promoverem entendimentos duradouros nalgumas dimensões do exercício do poder. O que é uma pena, porque a história recente tem demonstrado que, sempre que Portugal rema para o mesmo lado (sobretudo no campo do progresso civilizacional), consegue deixar marcas que se estendem para além dos ciclos governativos e se sobrepõem à vigência circunstancial dos executantes.

Vejamos: a Austrália, portento económico e de modernidade, só agora deverá aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Entre nós, a lei que autoriza a união civil homossexual tem sete anos e já permitiu que mais de dois mil casais pudessem "dar o nó". Outro exemplo das vantagens da estabilidade legislativa para a paz social pode ser encontrado nas políticas de toxicodependência. Ainda ontem, a propósito da descriminalização da posse e do consumo das drogas decidido em 2001, o prestigiado jornal britânico "The Guardian" deixava a seguinte pergunta-elogio: "A política radical de Portugal contra a droga está a funcionar. Por que é que o Mundo não tem seguido o exemplo?"

Em 2007, com a despenalização do aborto, aconteceu o mesmo. Hoje, somos o país europeu com menos abortos por cada mil nascimentos vivos. Podíamos, ainda, invocar a adoção por casais do mesmo sexo e a maternidade de substituição como paradigmas de alterações legislativas arrojadas que, independentemente das opiniões ou crenças, estão para ficar. Ora, a janela que agora se abre para a legalização da eutanásia deve ser olhada à luz deste enquadramento histórico. Mas sendo este o mais complexo dos debates (afinal, trata-se de decidir sobre a morte, e isso não é sequer comparável à despenalização do aborto, porque nesse caso foi mais fácil para os médicos caucionarem a mudança), é desejável que a reflexão chegue a todos. Pessoalmente, só encontro dignidade na vida se me for dada a liberdade de poder ter dignidade na morte. Com serenidade e sem clubismos partidários, façamos, agora, a avaliação do que queremos ser à luz do que temos sido.

* SUBDIRETOR

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