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Até que a morte nos pare

Até que a morte nos pare

Nenhum ministro da Saúde de nenhum país do Mundo estava preparado para isto. Nem nenhum primeiro-ministro. Nem nenhum presidente da República.

Mas a brutalidade do embate e das medidas infligidas na primeira vaga da epidemia deu a todos tempo bastante para acomodar os estragos do inverno massacrante que se previa e que começa agora a abater-se sobre a rede hospitalar.

Ouvimos Marta Temido fazer juras diárias de amor ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) no pressuposto de que, sozinho, dará conta do recado, e ficamos com a imagem de um espírito ingénuo que procura travar o vento com as mãos no meio de uma tempestade que ainda nem atingiu o pináculo.

Na verdade, o SNS não precisa de ser salvo apenas do vírus, precisa também que o salvem do preconceito ideológico que impede que, num contexto de enorme exigência e necessidade de reunião de meios, se afastem os setores privado e social de uma solução integrada. Goste-se ou não, os portugueses sempre recorreram a eles.

Além de que a melhor forma de honrarmos a prevalência do SNS é ajudando-o a ter uma estratégia que garanta a sua eficácia e vida futura e não alimentado a ilusão de que possui o dom da ubiquidade. Ainda vamos a tempo de sentar toda a gente à mesa. De evitar que o exército de doentes não-covid fique novamente à porta, à espera de uma consulta, de um diagnóstico ou de uma cirurgia.

Com um SNS primordialmente vocacionado para a resposta covid, é apenas natural que se estabeleçam parcerias com hospitais privados e sociais no sentido de aliviar a pressão nas unidades públicas. Terá custos? Claro que sim. Mas não será preferível engolir o orgulho ideológico e equilibrar o sistema a insistir numa vontade que não é correspondida pela realidade?

Marcelo Rebelo de Sousa já percebeu o erro de avaliação do Governo, a Ordem dos Médicos já expôs repetidamente essa evidência. Só falta que António Costa e Marta Temido tomem a vacina do bom senso. Se não for assim, quando, daqui a uns anos, olharmos para as tábuas de mortalidade de 2020 e 2021, não ficaremos assustados com tudo o que de bom fizemos, mas com tudo o que era óbvio e ficou por fazer.

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* Diretor-adjunto

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