Opinião

Caro dois mil e vinte e um

Caro dois mil e vinte e um

Quase tudo foi dito sobre o que queremos que seja este ano. De regeneração, recuperação, de muito menos solidão. Aspiramos, como se isso fosse possível, a que este se transforme num ano zero, dois mil e vinte e um anos depois de Cristo.

Ressalvada a ingenuidade, resta dizer que não há nada de errado nesta sofreguidão coletiva. O que ansiamos esquecer é tão indesejável que a mais leve ideia de que 2020 poderia ser novamente um passageiro no futuro tenderia a ser encarada como um sinal de desistência e incapacidade. Mas não tendo nós abandonado o desejo natural de sermos felizes, devemos moderar as projeções que fazemos. Se há coisa que aprendemos com o desencanto foi a importância da ponderação. A vacina fará o seu caminho, mas a armadura em torno do nosso sistema imunitário não será esculpida num lampejo. Serão necessários muitos meses até que recuperemos a confiança uns nos outros. A natureza humana pode não se ter alterado profundamente com esta pandemia, mas há novas fronteiras enraizadas no caminho que nos conduz até aos outros.

E quando falamos da vacina podemos falar de outras formas de resistência, que vão necessariamente traduzir-se em diferentes níveis de prejuízo pessoal. Das desigualdades à pobreza, da exclusão à ausência de humanidade para com os mais fracos e desamparados. Fomos ao fundo juntos, mas nem todos se sujaram na queda. Os pornograficamente ricos ficaram ainda mais pornograficamente ricos. E os desvalidos somaram a acidez do medo a uma vida que já não tinha tempero.

Por isso, sejamos razoáveis na nossa lista de pedidos. Sonhemos com o melhor, mas não menosprezemos um reencontro com o pior. Não é por querermos muito que o Homem aprenda com os erros que ele se vai transformar num aluno aplicado. A nova Humanidade é a mesma Humanidade.

Diretor adjunto

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