Opinião

Com a cabeça fora do Citius

Com a cabeça fora do Citius

Houve vários momentos dramáticos na trapalhada do Citius, o sistema informático que bloqueou a justiça portuguesa durante mais de 40 dias. Mas o maior foi, provavelmente, o que conduziu a uma teoria da conspiração que se cristalizou no espaço mediático. A de que a migração apressada de milhões de processos judiciais para uma plataforma digital só não acontecera por obra e graça de uma sabotagem.

A ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, agarrou-se com ambos os braços a esta boia de salvação. Pelo menos pensava ela. Na verdade, como o argumento deste filme negro foi tão elegante nos detalhes, até nos dava vontade de acreditar. Afinal, esta era a história de dois funcionários administrativos da PJ que tinham sido alcandorados à condição de mentores de uma gigantesca trama informática. Com as consequências sabidas: milhões de documentos e informações vitais suspensos numa espécie de limbo.

Semeada a dúvida, a ministra deu-lhe corda. Pediu ao Ministério Público que investigasse as suspeitas. O Citius começava finalmente a endireitar-se e havia que manter bem vivo o fantasma da cabala. Duas semanas bastaram para a estratégia ruir: a Procuradoria ilibou os dois suspeitos e arquivou o processo, por falta de indícios do crime de sabotagem informática e do crime de coação. O despacho é cristalino: o Citius revelou-se um sistema frágil e o Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça foi incapaz de conduzir o processo de migração "com eficácia".

Perante isto, o que diz a ministra? Que "os factos descritos no relatório não revelavam, mas não excluíam, a ocorrência de ilícito". Paula Teixeira da Cruz é uma mulher obstinada. E isso é salutar. Menos quando esse empenho se transforma em cegueira. Desista, senhora ministra. Perdeu.

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