O Jogo ao Vivo

Opinião

#CREDO

Defender o interior do país voltou a ser um desporto nacional não federado entre os dirigentes da classe política indígena. Sempre que o interior sangra, ei-los, prolixos, a ensaiar atos de contrição e de pesar. O problema é que o interior sangra por várias partes do corpo, o que lhe tem valido múltiplas disformidades ao longo dos anos. Esse Portugal que vemos reduzido a um suculento naco de etnografia (come-se bem, bebe-se melhor, há lindas paisagens e até se distingue o suspiro dos passarinhos) tem sido vítima de muitas malfeitorias, mas há uma que encerra uma enorme perversão.

Fiz, há dias, centenas de quilómetros pelo interior norte de Espanha. Por estradas comparáveis às nossas. Com um detalhe: não apanhei uma portagem. Ora, cumprido este trajeto, entrei em Portugal por Chaves, via A24. E qual é a primeira mensagem que salta? Qualquer coisa como isto: "Bem-vindos, meus amigos, chegaram ao país das portagens". Mais à frente, e caso sejamos estrangeiros: "Virem à direita e comecem a pagar". O assalto, que se estende a demais autoestradas e geografias do território esquecido, é tão mais pernicioso porque enferma estas regiões de um duplo castigo. Os pórticos são mais um muro que adensa a clausura de quem se vê afastado sem ter pedido. Não sai ninguém. Não entra ninguém.

Há uns anos, Herman José resumiu esta fatalidade lusitana na perfeição, quando popularizou o CREDO (Canal Regional do Enterior Desquecido e Ostracizado). Infelizmente, saiu de antena. Infelizmente, continua atual. "Tcharan!"

JORNALISTA

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