Opinião

Defender Jesus com bombas

Defender Jesus com bombas

O Brasil vive, por estes dias, uma novela mediática de dimensões (literalmente) bíblicas.

O grupo de humoristas "Porta dos Fundos", num novo sketch sobre religião em tempo de Natal, decidiu retratar Jesus Cristo como homossexual, para além de ter desenhado um triângulo amoroso entre Maria, José e Deus. Ao contrário do que sucedeu em 2018, em que, num especial intitulado "Se beber, não ceie" (Jesus Cristo era um alcoólico inveterado e um "mau caráter", na definição de Gregório Duvivier, um dos autores do programa), desta vez a ousadia criativa da trupe capitaneada por Fábio Porchat soltou um exército impiedoso de críticos. Dos cristãos aos muçulmanos, gerou-se uma torrente irada que se materializou num abaixo-assinado em que cerca de dois milhões de pessoas clama pela retirada imediata do programa da plataforma Netflix.

A expressão do ódio atingiu o seu apogeu precisamente na noite de Natal, quando as instalações da produtora do programa, no Rio de Janeiro, foram atacadas à bomba.

Ao mergulharmos neste caso, percebemos que já não se trata apenas de um diferendo (vamos chamar-lhe assim) entre católicos e não católicos. Porque o debate sobre as fronteiras da liberdade artística e de expressão transformou-se numa questão política num país profundamente religioso e que, sob a liderança do evangélico Jair Bolsonaro, adensou ainda mais esse ascendente da fé sobre a realidade mundana. A tal ponto que, numa das várias ações judiciais interpostas para censurar o especial de Natal, há uma, a que está associado o presidente da Câmara de São Paulo, que reclama não apenas uma choruda indemnização coletiva, como uma compensação a todos os "cristãos que se sentirem lesados".

Esta não é a primeira vez que uma sátira religiosa origina uma tempestade social (basta recordar "Je vous salue, Marie", do francês Jean-Luc Godard, e "A vida de Brian", dos britânicos Monty Python), mas nem por isso é menos oportuno olhar para os efeitos destrutivos desta peça humorística, em particular na era da massificação da mensagem e vivendo nós num tempo em que todas as diferenças de opinião são reduzidas a um campo de batalha irreconciliável, em que somos incapazes de entender e aceitar os valores do outro.

Os humoristas da "Porta dos Fundos" têm todo o direito (até constitucional) de exercer a sua liberdade criativa sem amarras. Mas também não podemos ser insensíveis aos argumentos de quem viu num Jesus Cristo gay uma ofensa à sua fé. Uns e outros devem ter espaço para conviver em mundos separados. Demonstrando civicamente por que gostam ou não gostam. O que não podemos aceitar é que a violência e a censura sejam instrumentos definidores do gosto. Além do mais, defender Jesus com bombas não é lá muito católico.

Diretor-adjunto

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