Opinião

E por que não um ministro covid?

E por que não um ministro covid?

A errância que o Governo tem demonstrado na gestão da pandemia (nalguns casos, com o patrocínio de todos os partidos, como no dramático relaxamento do Natal) é resultado de desacertos ocasionais, mas também do desgaste natural que uma crise com esta violência e extensão temporal provocaria em qualquer decisor político ou organização executiva.

O fecha não fecha das escolas, e a guerra estéril em torno do que podem os alunos e os professores do público e do privado ensinar e aprender durante os 15 dias de férias forçadas, são apenas um dos exemplos da perda crescente de foco. O Governo que soube agir antes do tempo no primeiro confinamento atua, agora, ao sabor da pressão mediática, do sentido crítico (e justiceiro) das redes sociais, dos recados nos títulos dos jornais do presidente candidato Marcelo e tantas e tantas vezes num registo crispado de contra-ataque próprio de quem não tem solução para a inércia. O secretário de Estado da Saúde, Lacerda Sales, conseguiu resumir tudo numa frase, durante uma recente entrevista televisiva em que, também ele, foi a imagem da extenuação: "A evidência cientifica de hoje é o erro retificado de amanhã", disse ele.

Naturalmente que não podemos descurar a necessidade de improviso por parte de quem continuará a tomar decisões com base em estudos, projeções e análises académicas. Por parte de quem não pode demonstrar desprezo pela vida humana, mas tem a obrigação de ser fiel ao compromisso de salvar a economia. Mas este ano arrisca-se a ser ainda mais duro do que estes dez meses de má memória. E por isso é urgente que António Costa consiga injetar alguma vitamina e discernimento na estratégia. O aperto nos serviços de saúde começa verdadeiramente agora, os percalços no processo de vacinação ainda estão para vir, já para não falar das milhares de vítimas da tragédia social a quem o Estado não vai conseguir deitar a mão. Um quadro político futuro decorrente da reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa pode até ser um garante de estabilidade, mas, para além de tudo o resto, Portugal ainda tem a missão de presidir aos destinos da Europa durante meio ano. É neste contexto de elevada concentração e pressão que podia fazer sentido criar a figura do ministro covid. Alguém a quem o primeiro-ministro desse plenos poderes, alguém que pudesse cruzar as várias sensibilidades e necessidades ministeriais, alguém que não fizesse mais nada. Mas alguém de fora do aparelho, sem vícios e arrependimentos, que pudesse ajudar verdadeiramente um António Costa que, também ele extenuado, carrega cada vez mais sozinho o Governo nos seus cabelos brancos. Haverá esse alguém?

Diretor-adjunto

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