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És ridículo! Tu é que és!

És ridículo! Tu é que és!

Qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça quando lhe falam de Bruxelas? Se respondeu Europa, está certo. Se respondeu fundos europeus, também está certo. Se respondeu Alemanha, a sua resposta também pode ser considerada correta. A imagem que, nos últimos anos, fomos projetando da União Europeia tem-se construído, em larga medida, em torno de alguns conceitos-chave, onde avulta, para nosso bem coletivo, um que se sobrepõe a todos: democracia. Mas a distância do comum dos mortais para Bruxelas é, ainda assim, enorme. Apesar de ser lá que se decide o futuro de mais de 500 milhões de cidadãos, apesar de ser a partir dali que se condicionam tantas e tantas políticas nacionais. Porém, este desconhecimento e/ou alheamento não tem manchado a aura de credibilidade que as instâncias europeias preservam junto da maioria do eleitorado. E nem o Brexit causou, de repente, um surto de urticária na globalidade dos europeus sempre que ouvem falar em projeto comunitário. A ideia romântica da União Europeia pode muito bem ter morrido, mas ela é, com todas as imperfeições, a melhor casa para se poder viver.

Raramente a imagem que nos chega da Europa política é aquela a que assistimos ontem, motivada pela zanga - quase cinematográfica - entre o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani. O primeiro intervinha na casa do segundo numa cerimónia que marcava o fim da presidência de Malta da União Europeia. A ouvi-lo estavam, apenas, 30 dos 751 eurodeputados. Juncker, que não é conhecido propriamente pelo seu temperamento domesticado, rebentou em fúria e classificou o Parlamento Europeu de "completamente ridículo". "Pode criticar, mas não é a Comissão que controla o Parlamento, é o Parlamento que controla a Comissão", respondeu Tajani, que lhe exigiu tento na língua.

O puxão de orelhas de Juncker, desmedido na forma, serviu para pôr a nu o perverso e disfuncional funcionamento do sistema europeu: um Parlamento enorme vazio e esvaziado de poderes e uma Comissão sobranceira que dita as regras e gosta pouco de dar contas aos eurodeputados eleitos pelos países-membros. De resto, bastou ver a forma quase sofrida com que os representantes portugueses justificaram a ausência na sessão (todos faltaram por estarem a cumprir trabalho parlamentar noutro local, com exceção de Marinho e Pinto, que esteve presente, e de Carlos Zorrinho e Miguel Viegas, que por lá passaram mais tarde) para se perceber que mesmo com justificações atendíveis como as que foram dadas nos custa compreender para que serve e a quem serve a pesadíssima máquina burocrática europeia, onde as reuniões se sobrepõem aos grupos de trabalho e os grupos de trabalho se sobrepõem às sessões plenárias. O Parlamento Europeu não devia ser este lugar vazio e inconsequente onde pouco ou nada se decide. É injusto para os eleitores, é injusto para quem os representa.

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