Opinião

Esfriar, liderar e disparatar

Esfriar, liderar e disparatar

Esfriar. Não é fácil manter a cabeça fria quando somos salpicados a toda a hora pelas vagas de um mar em chamas. Não é fácil convocar a razão quando a guerra que travamos não está nos manuais de boa governança. Mas é isso que esperamos dos líderes. Mesmo que não enverguem capa nem tenham poderes sobrenaturais.

É fundamental que a gestão desta pandemia seja feita de uma forma transparente, mas sobretudo recorrendo a uma linguagem clara, sem equívocos e sentidos contraditórios. As várias versões sobre o número de testes de despistagem de que o país dispõe e/ou precisa e as diferentes interpretações sobre os ventiladores que tem e vai adquirir não contribuem para a serenidade necessária. Já para não falar na contabilidade desencontrada sobre o número de mortos e os dados concelhios. Nesta fase, exigimos apenas o óbvio: quando não há certezas, mais vale estarem calados.

Liderar. Atacar uma epidemia global de forma isolada é como querer segurar o vento com as mãos. Neste particular, a Europa está novamente à deriva, permitindo não apenas que impere a lei do mais forte no ataque à doença - florescem histórias de estados-rapina que tentam resgatar máscaras e ventiladores a países "concorrentes" - , como condenando à morte, pela inércia, qualquer tentativa de resposta concertada à violenta crise económica que se espera. A paralisia europeia só não é amadorismo porque, quando se trata de agitar a batuta da austeridade para fazer cumprir os pactos orçamentais, Bruxelas encontra sempre forma de convocar o espírito da União.

Disparatar. O país parou. Vivemos em estado de emergência. Há doentes infetados todos os dias. Há doentes que morrem todos os dias. Milhões de portugueses estão confinados em casa, tudo em nós está do avesso. Ainda assim, o presidente do Parlamento (segunda figura do Estado) e um deputado do PSD enredaram-se num debate quixotesco sobre se deviam estar no hemiciclo a discutir o que fazer no momento mais dramático da história recente do país ou se deviam tê-lo feito noutro lugar, para evitar contágios. Folhetim que acabou com Rui Rio a abandonar a bancada do PSD, à qual passou um tremendo raspanete por ter gente a mais nas cadeiras. Quando não há adultos na sala, o problema não é a sala.

*Diretor-adjunto