Praça da Liberdade

#eurovisionários

Há coisas que, em doses proporcionais, me divertem e aborrecem no nativo português. E a melhor/pior de todas é a capacidade intrínseca de denegrir os atos em que demonstramos extrema competência e de, em resultado dessa característica, perdermos a noção de perspetiva quando somos tentados a produzir sentenças. Tomemos como exemplo a Eurovisão. Já ninguém se lembra, mas há um ano e tal Salvador Sobral não era um herói nacional imitado em todo o Mundo, mas um junkie, de trejeitos bizarros, mal vestido e com a mania que era bom (afinal é mesmo). Ainda hoje há fatalistas-moralistas que se refugiam na sua não comprovada costela de melómano para arrasar aquela canção maravilhosa e o seu intérprete (isto é a minha costela de melómano a tomar conta do texto). O tempo é, neste particular, uma brisa permanente que ajuda a clarear os preconceitos. E ao olharmos (porque ouvir é penoso) para o cardápio deste ano mais razões nos assistem para concluirmos que "Amar pelos dois" pode muito bem ter sido um momento único na história de tão sui generis certame, por aquilo que teve de disruptivo. Mas disruptivo em bom, porque a banda (desenhada) finlandesa de heavy-metal que, em 2006, saiu vitoriosa foi apenas a Eurovisão a querer mostrar ao universo que também sabe acolher pessoas mascaradas para o casting da Guerra dos Tronos que se enganam na saída da autoestrada. Em 2018, o circo está de volta. Este ano não há Salvador, mas a produção da RTP tem sabido honrar a herança qualitativa por ele deixada. No fundo, influenciámos com boa música e influenciamos com música fajuta. É como ganhar outra vez.

JORNALISTA