Opinião

Há greves boas e greves más?

Há greves boas e greves más?

Há greves boas e greves más? A resposta dependerá sempre da pele que vestirmos. Se estamos do lado de quem protesta, a paciência é elástica; se somos vítimas involuntárias da contestação, o mais certo é ficarmos cheios de urticária.

Mas a bondade ou maldade de uma greve não se cinge a esta dicotomia clássica. As greves existem para causarem mossa. É essa a sua natureza e propósito. Mas sendo isto verdade, também é aceitável que nos questionemos sobre como encarar um protesto que, a coberto da legitimidade que lhe é conferida pela Constituição, ameaça ser tão destrutivo que pode fazer perigar os mais bem intencionados preceitos da luta, deixando um rasto imprevisível de danos económicos e sociais. Tornando-se, no fim da linha, autodestrutivo. Os fins justificam sempre os meios?

Indo ao ponto: a greve dos camionistas vale mais como direito constitucional dos trabalhadores do setor (de uma parte deles, pelo menos) do que o direito da esmagadora maioria dos portugueses à paz pública e ao livre e normal acesso a vários bens essenciais, além dos combustíveis? Medindo cada palavra, foi esta a equação que o presidente da República colocou nos pratos da balança. A greve é boa, porque legítima, mas é má, porque arrisca ser incompreendida pelos cidadãos, em virtude da sua tremenda eficácia. Os meios e os fins. Sempre.

A dúvida de Marcelo, que é também a dúvida do Governo, dos patrões e do sindicato de transportes afeto à CGTP, traduz não apenas um fundado receio sobre o impacto de uma paralisação desenhada para ser corrosiva no tempo e no modo, como encerra outra lição. A de que as novas formas de sindicalismo, mais profissionais, sofisticadas e quase "à la carte", estão a forçar a classe política a encontrar respostas proporcionais a desafios muitas vezes desproporcionados. Não é certo que esta novel consciência crítica traga mais vantagens do que perigos.

* DIRETOR-ADJUNTO