Opinião

A água turva do banho

A água turva do banho

Quem é que, em 2018, ocupando cargos públicos sujeitos a um apertado escrutínio, ainda é capaz de inventar habilitações académicas na esperança de não ser apanhado? A pergunta parece despropositada, atendendo, sobretudo, ao facto de, não há muito tempo, terem sido afastados membros de gabinetes ministeriais com propensão para escrita criativa curricular, mas a verdade é que ainda há quem encontre utilidade neste expediente. O secretário-geral do PSD, Feliciano Barreiras Duarte, incluiu na sua biografia oficial, durante vários anos, o estatuto de "visiting scholar" da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, apesar de nunca lá ter posto os pés. Nem como investigador, nem como visitante, confirmaram a instituição de ensino superior e o próprio. A suspeita de falsificação do seu percurso académico levou, entretanto, o Ministério Público a abrir um inquérito.

"Há um aspeto do seu currículo que estava a mais, não estava preciso, e ele corrigiu", declarou, com uma ligeireza que não lhe é característica, Rui Rio. Na verdade, aparentemente havia era um aspeto a menos. Chama-se verdade. Feliciano Barreiras Duarte recebeu de facto uma carta-convite de Deolinda Adão, professora da Universidade da Califórnia, mas não chegou a apresentar nenhum trabalho académico que lhe permitisse usar do estatuto de professor visitante. Como se isso não bastasse, e no decurso destas... vamos chamar-lhes... imprecisões, a Universidade Autónoma de Lisboa, onde Barreiras Duarte está inscrito num doutoramento em Direito, vai agora analisar da necessidade de ele ter de voltar às aulas das quais ficou isentado em 2016. É um novelo.

Ora, a seriedade intelectual (ou falta dela) do secretário-geral do PSD tem, obviamente, consequências políticas, por mais que, na reação, ele tente agitar o fantasma da campanha orquestrada para o atingir a si e ao presidente do partido. A velha e costumeira cabala. Será sempre legítimo pensarmos que, se mentiu no currículo, pode muito bem ter a tentação de o fazer mais vezes noutras áreas. É justamente essa nebulosa ética que lhe retira credibilidade política e fere de morte a sua ação como secretário-geral do partido.

Aliás, para quem, como Rui Rio, prometeu um "banho de ética" na política, o novo PSD está a recorrer em demasia à água turva da banheira para lavar as impurezas do corpo. Basta recordarmos que o Ministério Público também está a investigar o mandato na Ordem dos Advogados da agora vice-presidente Elina Fraga.

Desde que chegou ao partido, Rui Rio tem colecionado inimigos internos. Mas, algo inesperadamente, os que estão a causar-lhe maior mossa são os "inimigos" que ele escolheu. O banho de ética política está a transformar-se num duche gelado de realidade.

* SUBDIRETOR

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