Opinião

#Hannah

Há uma verdade dolorosa no stand-up "Nanette", da australiana Hannah Gadsby. Diz ela a dada altura que vai deixar de fazer os outros rir das suas fraquezas porque o humor autodepreciativo, mesmo que eloquente, nunca dignifica. No fundo, de como é perversa a ideia de que ao expormos os nossos fantasmas nos tornamos superiores perante os outros. Não tornamos. Seremos só vítimas. E Hannah é uma vítima. Antes de mais, de um talento de escrita que nos deixa encolhidos de inveja; de um assombroso estilo de interpretação que funde inocência, sarcasmo e uma por vezes dilacerante raiva. Hannah é uma lésbica pouco convencional ("acho que nem lésbica é a identidade certa para mim. Identifico-me como cansada"). É desmazelada, gorducha, veste-se como um rapaz e desafia com escárnio as etiquetas do género. Para lá disso, é dona de uma cultura olímpica sobre História de Arte, que discorre de forma genial durante o espetáculo. Atingiu o estrelato guindada na opção sexual. A demorada saída do armário e os anos de penumbra providenciaram-lhe basto material de qualidade. Mas "Nanette" é o epílogo desse abismo. "Preciso de contar a minha história da forma certa". De como foi ostracizada, violada em criança, depois em adulta, espancada numa paragem de autocarro por um estranho. Por ter escolhido não querer ser outra coisa que não ela. "O riso não é o nosso remédio. As histórias têm a cura". E que história a de Hannah Gadsby. Que história.

*JORNALISTA