Opinião

É tão bom, não foi?

É tão bom, não foi?

Como em qualquer relacionamento amoroso que esteja preocupado em ser duradouro, também a união de facto entre António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa tem demonstrado uma assinalável capacidade de mutação e adaptação aos acontecimentos que estão diretamente ligados ao calendário eleitoral. Na verdade, não era de esperar outra coisa de um entendimento em que apenas uma das partes (o PS) meteu a cabeça, o tronco e os membros no Governo.

O jogo de interesses particulares em que se transformou este acordo de base coletiva tem resistido a quase tudo - mesmo às linhas vermelhas consideradas intransponíveis, como o défice e a plena integração europeia -, mas o tempo da execução política dá, lentamente, lugar ao tempo do balanço da atividade política. E a geringonça 2.0 começa a ganhar forma nos discursos. Juntos somos mais fortes, mas será que ainda faz sentido continuarmos juntos, se aquele que foi o mais valoroso dos cimentos que nos uniu - varrer do mapa uma Direita agrilhoada num discurso monolítico e impopular - está feito em cacos e espalhado pelo chão?

O até que a morte nos separe já não projeta aquele som mavioso típico dos primeiros tempos do enamoramento. E, sendo certo que, na fina contabilidade de espingardas, PS, BE e CDU sabem bem o que podem fazer juntos, a verdade é que conhecem muito pouco sobre o que podem valer separados. Por isso é que os próximos meses vão ser muito interessantes de seguir. Com os socialistas a treparem nas sondagens, e com a rua e os protestos sindicais adormecidos numa espécie de coma controlado, o ascendente de PCP e BE, típicos partidos de combate, pode tender a desvanecer-se.

Não admira, pois, que António Costa faça juras de amor eterno aos parceiros parlamentares. Porque, nesta fase, pode perder mais do que ganhar se quiser afirmar-se pela diferença, canibalizando eleitorado à Esquerda que pode muito bem, e de forma menos hostil, passar-se para o seu lado, entusiasmado com a ideia do voto útil. Sem a rua, PCP e BE vão ter de agarrar-se às contrapartidas inscritas no acordo tripartido ainda por cumprir. Vão ter de demonstrar que, sem eles, não era possível ter devolvido rendimentos e até alcançar um défice histórico. Vão ter, sobretudo e mais importante, de encontrar novas linhas vermelhas para fazer vergar os socialistas e dar sentido ao seu discurso. Vão ter, basicamente, de fazer oposição ao Governo. Que é uma coisa que António Costa não tem tido.

* SUBDIRETOR

Conteúdo Patrocinado