Opinião

#gentepequena

Pedrógão Grande continua inculcado em nós. Ondulando entre a conspurcação da consciência geral e a catarse solitária de quem perdeu o sentido da existência naquela data ignóbil. As suspeitas já conhecidas sobre a reconstrução das casas calcinadas pelo fogo eram bastantes para nos fazer corar de vergonha, mas a peça jornalística que a TVI mostrou agora é uma estátua multimédia ao espírito rasteiro de alguns. Gente que perdeu uma casa de segunda habitação e alterou a morada fiscal para beneficiar das ajudas públicas e privadas destinadas a reerguer as casas de primeira habitação. Um presidente de câmara que encolhe os ombros de aparente sonsice, uma "vice" que, confrontada com as denúncias, se esconde na burocrata cobardia do "eu encaminhei". Personagens adultas que agem como crianças quando apanhadas com bigodes de chocolate depois de terem ido ao pote dos doces a que não deviam chegar. A patranha é uma corrente subterrânea da desordem. Seria próprio da natureza humana, não fosse tão típica da natureza lusitana. E depois uma frase que é derradeira a definir essa cultura: "Se os outros fizeram, porque não ia eu fazer?" Um safe-se quem puder pavloviano, de quem acha normal sermos reles para não sermos lorpas. Pedrógão não nos ensinou nenhuma lição. Só veio comprovar que não aprendemos nada porque já sabemos tudo. Pedrógão Grande, gente pequena.

*JORNALISTA

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