Opinião

Matilde no país das maravilhas

Matilde no país das maravilhas

Olhar para um filho não devia ser como olhar para uma ampulheta. Mas se a vida nos olhos desse filho se esvai com a mesma cadência e irreversibilidade com que os grãos de areia trocam de lado nessa ampulheta, então deixamos de ver apenas um filho e passamos a ver minutos. Horas. Dias. Meses.

Não consigo imaginar o que será olhar assim para um filho e posso apenas calcular o que terão vivenciado os pais da Matilde, a bebé de dois meses com uma doença rara que comoveu e mobilizou Portugal. É verdade que, na era das emoções partilháveis, nos enternecemos com uma superficialidade aterradora. Porém, num país adiado em tantas missões, moldado por doses cavalares de unanimismos estéreis, que se levanta pouco do sofá para mudar o que só ele pode mudar, podermos constatar que o altruísmo ganha sentido quando assume a forma de uma causa justa não é de somenos. É o bom ADN a espernear.

E olhem que não foi pouco aquilo que os portugueses alcançaram em pouco mais de duas semanas. Adquirir o medicamento mais caro do Mundo, avaliado em dois milhões de euros, parecia uma impossibilidade quando ouvimos pela primeira vez a história da bebé diagnosticada com uma atrofia muscular espinhal de tipo I e cujo tratamento teria de ser efetuado nos Estados Unidos da América. Mas nestas duas semanas o impossível tornou-se possível. Matilde e os pais abriram uma janela para o futuro de outras crianças com o mesmo diagnóstico.

Se nos transcendemos de forma exemplar por uma menina cuja vida depende de um cheque, se elegemos a saúde da Matilde quase como imperativo patriótico, então julgo que não é exagerado concluir que vários gestos singulares repetidos acabaram transformados num movimento que roça o heroico. Apesar de todas as deceções que já nos valeu o nosso espírito de entreajuda. E mesmo aqueles que não contribuíram com um cêntimo para este turbilhão de generosidade certamente que se sentem representados por este Portugal que sabe remar de forma ordenada para o lado certo da maré quando assim tem de ser. Que haja, no fim da viagem, um porto seguro para a Matilde.

*Diretor-adjunto