Opinião

Não morreu ninguém

Não morreu ninguém

Não merece discussão: não ter morrido ninguém nos incêndios de Monchique é uma excelente notícia. Termos um primeiro-ministro que sente necessidade de agitar uma obrigação do Estado como trunfo já não precisava de ser notícia. A atrapalhada gestão mediática que o Governo está a fazer do pesadelo algarvio tem de servir de reflexão futura sobre o que deve ou não ser dito sobre fogos em Portugal de todas as vezes que o assunto escalda a consciência da nação. Sobretudo porque há um antes e um depois de Pedrógão. E ninguém com responsabilidades públicas pode achar que tudo o que afirma não é imediatamente analisado à luz dos acontecimentos do ano passado. No Governo e na Oposição. Mais de 100 portugueses mortos. Não esquecer.

Ver, por isso, vitórias num fogo devastador como este (o maior da Europa até ao momento) foi um momento de grande infelicidade de António Costa, por mais que, em sua defesa, alegue que não quis dizer aquilo que todos escutaram. Discursar em cima de um mar de chamas terá sempre esse efeito: ouve-se com o coração, não com a cabeça. Aconselha-se, por isso, redobrada prudência em assuntos desta natureza. Porque ainda há muitas feridas abertas. Decidir mais, falar menos. E, sobretudo, informar. Desde logo as populações expostas à fúria das labaredas que é absolutamente necessário que cumpram as orientações das autoridades, que é imperioso que abandonem as suas habitações quando lhes é solicitado, porque o valor da vida não tem negociação e porque não o fazerem pode pôr em risco a ajuda e a integridade dos outros. Mas que se explique devidamente. Porque ninguém pode ter a soberba de achar que é de ânimo leve que se abandona uma casa, uma vida, memórias. Não morreu ninguém em Monchique e ainda bem. Oxalá tenhamos aprendido esta primordial lição. Agora só falta aprendermos as outras todas.

*Subdiretor

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