Opinião

#nãoénormal

Um dos aspetos mais corrosivos do debate público em Portugal é a facilidade com que caímos na bipolarização argumentativa. E de como o espírito de claque mina os fundamentos de qualquer discussão, num eterno F. C. Porto-Benfica em que parece não haver meio-termo nem foco. É natural e desejável que diferentes pontos de vista se confrontem. É daí, de resto, que florescem os consensos ou os distanciamentos, mas há bizarrias lusitanas que apenas servem para atestar da nossa pequenez e tornar evidente a estreiteza de alcance de muito boa gente. Vejamos, por exemplo, em que degenerou a revelação de que a Google tinha interesse em fixar-se no nosso país, criando mais de 500 postos de trabalho. O anúncio foi feito em Davos pelo primeiro-ministro, António Costa, numa óbvia tentativa de associar o Governo à boa notícia. Nada de extraordinário nisso. Outros fariam o mesmo. Ora, o debate que se seguiu foi este: esses mais de 500 empregos em Oeiras são bem-vindos (e porque não no Porto?, pedinchou Rui Rio), mas é preciso ver de que empregos estamos a falar. Porque se for um call center, como foi aventado, ou estiver contemplada na prebenda, por absurdo, a contratação de 20 empregadas de limpeza, já não é a mesma coisa. Não é qualificado. Entretanto, a Google já esclareceu: é mesmo premium. E nós, que temos tanto, mas tanto emprego que até podíamos exportá-lo para a Alemanha, achamos este debate normal. Se calhar, é melhor devolver tudo à Google.

* JORNALISTA

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