A abrir

Nas asas do desejo

Se há meia dúzia de anos nos dissessem que os turistas iriam acotovelar-se nas ruas e ruelas do Porto, que a cidade estaria entre os principais destinos da Europa, que o turismo ia crescer a uma velocidade de dois dígitos, se tentassem, enfim, convencer-nos da bondade deste quadro, o mais natural era beliscarmos a profética criatura para ela acordar do sonho. Provavelmente já não nos recordamos, mas não foi assim há tanto tempo que o Porto se desembaraçou da imagem da urbe fechada entre muros. Ensimesmada. Com pouco mundo nas entranhas. Mas é bom não esquecer. Para não voltarmos a esse tempo.

O sonho é, afinal, palpável. Mesmo agora, que o inverno começa lentamente a instalar-se, não se notam sinais de abrandamento no fluxo de visitantes. Por terra, pelo rio, pelo mar. Pelo ar.

O dia merece, por isso, ser assinalado em vários idiomas, porque grande parte (para não dizer a esmagadora parte) do sucesso de uma estratégia que para os românticos aconteceu porque tinha de acontecer, se deve ao Aeroporto do Porto, que hoje celebra 70 anos.

Celebra, sim. Ter quadruplicado os passageiros numa década, atingindo, até ao fim do ano, a cifra dos oito milhões de movimentos, e ter perspetivas de duplicar a operação até 2022, entrando no competitivo mercado das companhias de longo curso, é um feito notável. Sobretudo atendendo às adversidades criadas pelo poder central, que preferia continuar a olhar para o "Sá Carneiro" como um aeroportozinho sem grande movimento, mas que dava um jeitaço para chegar mais depressa ao Norte. Não deixou, a esse propósito, de ser curiosa a reação, há dias, do novo dono da TAP, quando confessou ter ficado admirado ao aterrar no Porto e perceber que só havia aviões da Ryanair. Se fosse por vontade da TAP, ainda estávamos de mão estendida.

O "turista de chinelo", esse cliché estafado que nos vendem como uma coisa má, tem ajudado a revolucionar muito mais do que o comércio tradicional e a hotelaria da cidade. Esses largos milhares de chinelos serviram para dar um impulso brutal ao Porto. Transformando-o naquilo que ele é: um corpo frenético, com uma vida noturna intensa e uma alma cultural que se (re)ergue ao fim de uma década de obscurantismo. Esta onda morna que cobre a cidade obrigou-a a crescer. Mais hotéis, mais apartamentos para arrendar, mais construção. Mais economia. Mais empregos.

No fim da linha, se os ventos forem favoráveis, cumprir-se-á, esperamos todos, a parte mais bicuda da equação: voltar a encher o Porto de portuenses que não regressam à periferia ao final da tarde. Para voar ainda mais alto, a cidade burguesa não pode aburguesar-se.