Opinião

O 10 de Junho em Sobrado

O 10 de Junho em Sobrado

Não abriu telejornais. Não motivou discursos grandiloquentes de pensadores de proa. Não deu azo a leituras sociológicas, ideológicas ou de outra índole.

Ninguém ousou deitar o país no divã porque mil cidadãos anónimos de Sobrado, Valongo, saíram à rua num feriado encostado a um fim de semana de sol para protestar contra um aterro sanitário que lhes desgraça os dias há anos. Mas mil cidadãos de uma freguesia onde vivem menos de sete mil pessoas decidiram vestir-se de negro no Dia de Portugal por um interesse comum: mitigar os efeitos ambientais de um depósito que recebe diariamente 300 toneladas de lixo e lhes diminuiu sobremaneira a qualidade de vida. Não foram festejar uma taça nem um campeonato. Foram dar envergadura a um dos preceitos básicos de qualquer democracia robusta: intervir diretamente na escolha do caminho.

Ora, é precisamente nestes movimentos inorgânicos que se fortalece o sentido de pertença que nos distingue e nos completa, é nestas formas de expressar a cidadania que habita a ténue convicção de que não nos rendemos ao irrecuperável divórcio entre eleitores e eleitos. O exemplo de Sobrado é local, mas encerra uma mensagem nacional. A de que não estamos reféns de grandes realizações para fazermos a diferença. Que essa diferença pode e deve começar na nossa rua, no nosso bairro, na nossa freguesia. Na nossa comunidade.

Sempre que um novo 10 de Junho se cumpre, vestimos o fato de gala para revisitar sentenças: os portugueses acumulam qualidades ímpares, mas há quistos sistémicos que nos agarram ao fundo. Há quanto tempo é assim? Provavelmente, desde sempre. A democracia participativa, pináculo do civismo e da educação, exerce-se nos pequenos gestos, na força aglutinadora de um grupo que se une na procura de um desígnio. É dessa aparente simplicidade que se alimenta o caráter de um país.

*Diretor-adjunto