Opinião

#perdido

Perder a carteira é quase tão doloroso como perder a cabeça. Sobretudo porque reside na segunda a explicação para a ausência da primeira. Já me aconteceu uma ou duas vezes ser violentado por essa desagradável azia, embora seja justo reconhecer que apenas guardo para a eternidade a memória daquela tarde outonal em que circulei um par de quilómetros com o telemóvel e a carteira no tejadilho do carro, conseguindo a proeza de manter a completa e absoluta integridade física de ambos. Foi assim uma espécie de "sightseeing" combinado entre os meus rendimentos e as minhas comunicações. Um clássico típico de quem acha que consegue sentar criancinhas no banco de trás, guardar as compras do mês e abrir a mala do automóvel só com duas mãos. Ora, desta vez, perdi apenas o cartão multibanco. O coração pára e ficamos da cor do leite sem lactose, porém, acabamos por não sentir uma culpa tão demoníaca a entupir-nos as artérias. Mas temi o pior: descobriram o código. Imaginei um tipo mal-amanhado a derreter o saldo em videojogos, uma adolescente vitaminada a secar os euros em maquilhagem, amigos às gargalhadas à saída de uma loja de desporto, trajados de marcas vistosas. Debacle. Afinal, o cartão fora capturado pela máquina multibanco, após ficar esquecido na ranhura. Zero dramatismo, zero suspense. E um sentimento de culpa de quem expiara ladrões que só habitaram a minha cabeça. A todos eles, as minhas desculpas.

*JORNALISTA

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