Opinião

Pode o INEM salvar o SNS?

Pode o INEM salvar o SNS?

Não há necessariamente uma contradição entre o que diz António Costa e Mário Centeno sobre o investimento em contraciclo feito na Saúde e a posição angustiante dos cidadãos que todos os dias recorrem aos hospitais e aos centros de saúde.

Ninguém duvida do amor do primeiro-ministro e do ministro das Finanças ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas o esforço certamente patriótico que um e outro vão fazendo para nos fazer crer que, se não fosse por eles, tudo podia estar ainda pior, sobretudo no que se refere ao quadro de pessoal, nem chega a ser um paliativo ante essa poderosa força chamada realidade. Podemos estar a reforçar o esforço da despesa pública com saúde, mas isso não significa que esteja a ser suficiente. E esse é o ponto fulcral de onde tem de partir qualquer discussão séria sobre o problema. O que está a ser feito não chega. De onde avultam outras questões: de quanto dinheiro vamos precisar para inverter este permanente estado de emergência? E ao afastarmos totalmente os privados e o setor social do universo do atendimento público não estaremos a condenar ainda mais o SNS, fazendo com que, de uma forma perversa, quanto mais ele se desliga deles, mais buracos vai deixando por tapar?

A verdade é que os cuidados de saúde continuam a degradar-se todos os meses, num contexto de grande instabilidade laboral, traduzida nas sucessivas greves que, por mais justas que sejam, expõem ainda mais as fragilidades do sistema. Faltam médicos, enfermeiros, medicamentos, o equipamento acusa da pior forma possível a falta de manutenção e substituição. Para onde quer que se olhe, vê-se o mesmo filme dramático.

O trabalho que hoje publicamos sobre a capacidade de resposta do INEM é, nesse âmbito, paradigmático do estado débil da saúde. Não podemos aceitar que, por falta de pessoal, haja dias em que os tempos de atendimento de uma chamada urgente atinjam os oito minutos, quando o tempo médio estimado são sete segundos. Não podemos aceitar que, em apenas um mês, o INEM não tenha conseguido dar resposta a quase dez mil chamadas (que é o mesmo que dizer que, por dia, houve 333 portugueses que ficaram "pendurados") e que, desse universo, só metade dos contactos tenha sido recuperado. Ora, o que terá acontecido a esses doentes que não foram acompanhados?

No país esquecido pela agenda do poder certamente que as ondas de choque serão maiores, mas a maleita está disseminada. E atingiu também a casa da democracia. Que maior peso político podemos dar a um assunto quando um deputado, ainda por cima do partido do Governo, teve de esperar meia hora, em pleno Parlamento, em pleno coração de Lisboa, para ser socorrido pelo INEM? As marcas negras de um SNS que queremos vigoroso estão a atingir todos. Mesmo aqueles que, pela sua condição e geografia de interesses, julgávamos à prova dos excelentes desempenhos financeiros que nos estão a debilitar a paciência.

Diretor-adjunto