Opinião

Sangue na arena

A forma simplista e não raramente leviana como projetamos desabafos nas redes sociais faz-nos olvidar uma coisa básica: há uma forte probabilidade de podermos sofrer as consequências daquilo que dizemos. É certo que a dinâmica irracional que alimenta este mundo paralelo não se atemoriza perante esse risco, mas basta olharmos para o que aconteceu há dias em Espanha para sentirmos necessidade de parar um bocadinho para pensar.

Antes de pôr nomes na história, convido-o a fazer o seguinte exercício: vista a pele de uma personalidade mediática, mulher, bonita. Junte a isso uma capacidade de intervenção pública ancorada numa nada negligenciável legião de seguidores no Twitter (mais de 180 mil). Agora, imagine que há outra mulher, anónima, que, ao vê-la intervir num debate televisivo, se sente tão incomodada com as suas palavras que bolsa um comentário nojento no Facebook em que deseja que você seja violada em grupo. O que fazer? Denunciar esta mulher, expondo o seu nome e imagem, até então limitados ao universo virtual de amigos e conhecidos? Pregá-la na cruz, como exemplo? Atiçar a fogueira do ódio digital atirando-lhe ainda mais ódio? As respostas a estas perguntas não são óbvias.

Mas Inés Arrimadas, líder do partido Ciudadanos na Catalunha e figura central deste episódio, optou pela denúncia pública de Rosa María Miras, por respeito a si própria, mas também a todas as mulheres violadas, explicou. Decidiu expor a criatura destemperada, dando publicidade global a um caso que, em circunstâncias normais, teria nascido e morrido na mesmíssima e incógnita caixa de comentários do Facebook.

Não é difícil prever o que se seguiu. Uma torrente de partilhas e posições públicas em defesa das mulheres e de Arrimadas, incluindo de líderes de outros partidos. E uma torrente repulsiva e absolutamente destruidora na direção da responsável pela frase abjeta. Aliás, não demorou muito até a mensagem chegar à empresa que, um mês antes, contratara Rosa María Miras. Apenas quatro horas depois de Arrimadas ter soltado a sua ira e a das redes, a mulher já tinha sido despedida. A vida de Rosa e da família ficou estilhaçada. Ameaças várias, em múltiplas plataformas, justiça medieval em todo o esplendor. Rosa jurou arrependimento. E lamentou que, no futuro, ninguém lhe dê emprego.

Esta é a história de como uma anónima e imprudente internauta pagou com sangue a monstruosidade de um impulso. Esta é a história de como uma figura pública com audiência preferiu recorrer à justiça popular e não à dos tribunais para fazer a sua defesa. Na arena digital, as sentenças demoram um nanossegundo. E as vítimas tendem a confundir-se demasiadas vezes com os agressores.

* SUBDIRETOR

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