Opinião

Sem crianças e sem creches

Sem crianças e sem creches

Rita está a meio do tempo de gestação do primeiro filho. Depois da fortuna da maternidade, avisaram-na: começa a pensar numa creche para o bebé.

Rita estava consciente do problema, mas não tinha noção da batalha que estaria prestes a enfrentar para encontrar, no Porto, um espaço público que acolhesse o primogénito. E quem diz público diz privado, porque, na verdade, aí o cenário não muda muito. A lista de espera, apesar dos preços elevados, pode atingir um ano.

Publicado há dias, o relatório europeu da Eurydice sobre os cuidados na infância concluía que, em Portugal, o tempo que dista entre o fim da licença da maternidade e o momento em que as crianças têm garantido um lugar antes do ensino obrigatório é de três anos e meio. O Estado apenas garante uma colocação gratuita a partir dos quatro anos ou mais. Olhando para a realidade dos nossos parceiros, não ficamos mal na fotografia (estacionamos a meio da tabela), mas a aflitiva falta de bebés entre nós devia obrigar a classe política a inscrever o tema como obrigatório. Sobretudo porque os dados mais recentes (do ano passado) nos mostram que o número total de vagas em creches diminuiu, fazendo com que apenas metade das crianças até aos três anos tenha uma resposta. Cenário que se agrava nos meios urbanos.

Ora, os passos que Portugal tem vindo a dar desde 2015 no sentido da universalização do ensino pré-escolar são positivos, mas insuficientes. Além do mais, não podemos deixar que as medidas de promoção da natalidade estejam excessivamente focadas na fase da vida familiar que antece o nascimento, descurando o período determinante dos primeiros anos em que os pais têm de decidir se, na falta de uma resposta do sistema público, têm poder aquisitivo para colocar os filhos à guarda de uma creche privada ou, no limite, se não compensa que um deles deixe de trabalhar para cuidar do bebé.

Aqui e acolá, vamos lendo propostas avulsas dos partidos no sentido de mitigar os efeitos práticos deste drama familiar. Esperemos que a campanha eleitoral seja esclarecedora e que os programas partidários apontem caminhos. Um país sem creches não pode ter a ambição de ser um país com crianças.

Diretor-adjunto