Opinião

Trump trata o ódio com amor

Trump trata o ódio com amor

Não parece possível retratar, em simultâneo, a omnipresença e o vazio na capa de uma revista. Mas a mais recente edição da "New York Magazine" conseguiu-o: "Uma edição inteira com nada sobre Trump" foi o título escolhido, ilustrado com um apetecível e mordiscado gelado. Uma edição inteira a ignorar Trump usando Trump como isco. É retorcido, mas traduz de forma exemplar o quão avassaladora se tornou a presença no espaço público e mediático do milionário convertido em estadista. Podemos não querer ouvir falar dele, mas ele impõe-se, nem que seja pelo ridículo. É, aliás, desta equação que se alimenta o seu projeto de poder. Visibilidade a todo o custo.

Passaram três anos e a perceção que se instala é a de que, em 2020, o mais impreparado e grosseiro presidente norte-americano da História será novamente eleito. Por mérito dos que mantiveram um chefe de Estado declaradamente racista num aparente reduto de errância política, mas sobretudo por demérito de um Partido Democrata que não aprendeu nada com a lição e está a provar ser incapaz de exibir, no espaço de tempo de uma legislatura, uma alternativa credível que não apenas desmonte os dislates diários do presidente, como consiga instalar junto do eleitorado norte-americano (dos vários eleitorados) a convicção de que há uma alternativa "àquilo". Basta lembrar que os democratas chegaram a apresentar 20 candidatos à nomeação...

Trump sabe para quem fala quando entrincheira os democratas na luta "socialista" das quatro congressistas que mandou de volta para os seus países de origem, ainda que três delas tenham nascido no mesmo país de Trump. A América de que Trump precisa para ser reeleito não mudou: é branca, xenófoba e revivalista. Atacá-lo aí, onde parece que dói mais, só o fortalece. Pedir aos americanos, como fizeram as quatro congressistas democratas, para não morderem o "isco" do racismo só teve o efeito perverso de fazer com que, elas próprias, acabassem a morder o isco que o presidente lhes lançara. É que Trump trata o ódio com amor.

*Diretor-adjunto