Opinião

#júlio

Há um homem bondoso na porta da confeitaria. Que se ilumina por detrás de uma guitarra com quatro cordas. Não sabe cantar, não sabe tocar. Só sabe que o seu lugar é aquele, a estorvar quem sai, quem entra, quem dele se ri, quem com ele ensaia uns versos do desafino popular. "A mulher gorda...". Júlio não se rala com os amuos dos estranhos. Na imensa simplicidade que é o Júlio, não há lugar para fatalidades. Júlio não quer nada. Júlio é tão despegado da vida, que mendiga umas moedas mas não trata de providenciar a cesta, o chapéu virado para baixo. Nada. Não lhe ocorreu que pudesse haver mesmo quem quisesse recompensá-lo pela sua honrada prestação à porta daquela confeitaria. E vai por ali fora. "Ó Júlio, está mas é calado". Todo ele é um palco de felicidade. Brisa no rosto e luz natural. Pão quente, croissants, mil-folhas e queques. São só quatro cordas numa guitarra e um bom-dia e uma boa-tarde ocasionais. "Ó Júlio, ainda vais ao Got Talent". E ele ainda e sempre a rir-se dele próprio, de toda a gente que não vê nele o que o Júlio é: um pedaço rico de humanidade. Dar sem esperar receber. Coitado do Júlio, não sabe tocar, não sabe cantar. Coitados de nós, que não vemos que a parte mais doce do dia está fora e não dentro da confetaria. São quatro cordas de uma guitarra e um coração que é uma orquestra. "Dá-lhe, Júlio!"

JORNALISTA

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