Opinião

Marega: agora é a nossa vez

Marega: agora é a nossa vez

Era natural que assim fosse, e ainda bem que assim foi. O país que alucina diariamente com o futebol, e o outro, que, da forma menos lesiva possível, acondiciona no quotidiano os efeitos compressores dessa realidade paralela, comoveu-se.

E depois indignou-se. Marega saiu do campo e Portugal entrou de cabeça num problema que era coletivo e conhecido, mas que só Marega ousou expor de uma forma natural mas extraordinariamente corajosa. Talvez a lição mais marcante e duradoura daqueles minutos de fuga do jogador maliano (salvação talvez seja a palavra certa) tenha sido perceber que, à volta dele, ninguém soube como agir. Ninguém soube tomar o lugar certo ante a evidência de deixar tudo para trás. Nem os colegas, nem os adversários, nem o árbitro. E isso é profundamente desconcertante: um gesto tão natural, de simples humanidade, ser gerador de tanto desnorte. Não é uma crítica, é um lamento. O futebol português, e a sociedade sobre a qual ele tem tanto ascendente, convivem com o racismo com demasiada condescendência. "É o pretinho, é o negrinho". Começa assim, porque um diminutivo não é um insulto. É carinhoso, até. Há dias, verifiquei com espanto que, numa série juvenil de um canal por cabo, as dobragens de inglês para português das falas dos atores brancos eram feitas sem sotaque, mas as falas dos atores negros eram adornadas com uma "musiquinha africana". Depreciativa. Dir-me-ão: é um detalhe. Não é. Porque o tal diminutivo vai ganhando tamanho e, passados uns anos, acaba degenerado num "ó preto, volta para a jaula dos macacos!"

Não basta que nos indignemos num dia e nos demitamos de ser cidadãos ativos no outro. Ao Estado cabe a função de identificar e levar à justiça os atrasados mentais que insultaram Marega. A nós cabe-nos a parte mais difícil: deixarmos de ser especialistas em comoção rápida e esquecimento súbito e fazermos o nosso papel. Denunciando os racistas que cometem crimes. Ou alguém tem dúvidas de que, no próximo fim de semana, vão voltar a jorrar das bancadas impropérios rasteiros? Por isso, não seremos todos Marega se, nesse momento, não atuarmos. Mesmo que isso signifique apontar o dedo àqueles que costumam festejar connosco os golos do mesmo clube.

*DIRETOR-ADJUNTO

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