Opinião

Mega pé-de-meia

Aquilo que Santana Lopes, então provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, temia que fosse um ato de aventureirismo, depressa se transformou numa medida de interesse nacional de contornos irrevogáveis. Durante os anos da troika, assistimos à forma mais agreste de solidariedade pública com a Banca, por via dos nossos impostos. Agora, com a entrada da Santa Casa no capital do Montepio, esse altruísmo social assume outra dimensão. São entre 50 milhões de euros (na versão preliminar de Santana Lopes) e 200 milhões de euros (na versão quase definitiva de Edmundo Martinho, seu sucessor no cargo) que terão como destino um banco que, malgrado as suas características, não deixa de ser uma instituição de crédito. E, por isso mesmo, exposta às oscilações do mercado e singularidades do setor.

O "negócio" já foi apadrinhado pelo Governo, que vê com "bons olhos" a "cooperação entre instituições da área social", e pelo Banco de Portugal, que, achando o mesmo, está é preocupado em evitar mais uma dor de cabeça com um banco (tal como o Governo, de resto). Como as minas de ouro não abundam, e o euromilhões não sai assim tantas vezes, recorreu-se ao excêntrico de serviço para acorrer a um banco sedento de capital fresco. Política primeiro, política depois.

Porém, no meio de tantas evidências, há uma por provar: o que vai ganhar a economia social, e os mais carenciados, com a propensão banqueira de uma instituição como a Santa Casa, cujos fins estatutários estabelecem, logo no primeiro ponto, "a melhoria do bem-estar das pessoas, prioritariamente dos mais desprotegidos"? Não encontrei explicações convincentes. Mas o defeito pode ser meu.

Aliás, numa entrevista ao jornal "Público", Edmundo Martinho não deixou ninguém descansado quanto às garantias de que o dinheiro será aplicado sem risco. Só que o perigo existe, ou não estivessem em equação, além da natural volatilidade de um banco, quase 20% dos ativos da Santa Casa. Mas há que ser pioneiro, contemporizou o provedor.

É sabido que o arrojo dos homens traça, em muitos momentos, o futuro das instituições, mas, no que à Santa Casa da Misericórdia diz respeito, preferia que a ousadia estratégica estivesse confinada à raspadinha ou ao Placard, que são apostas certas no lucro, e não fosse estendida à participação no capital de um banco que, por muito que nos agitem a bandeira da missão social, busca o lucro através da concessão de crédito como todos os outros. De resto, quando vemos responsáveis da Santa Casa a disputar lugares na administração desse mesmo banco, fica tudo dito sobre a vocação humanista deste ato de pioneirismo.

Mas nem o Montepio é a Santa Casa nem a Santa Casa é um "capitalista" qualquer. No jogo da sorte e do azar que é a Banca, temo bem que os custos futuros desta raspadinha mega pé-de-meia possam superar o valor do prémio inicial. Uma certeza podemos ter: se correr mal, a solidariedade futura do Estado não estará indexada às taxas de juro.

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* SUBDIRETOR

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