Opinião

Mil milhões de coisa nenhuma?

Mil milhões de coisa nenhuma?

Mil milhões de euros é muito dinheiro. Empanturra qualquer barriga. Sobretudo a do Estado, que tem andado lisa como uma tábua. Ninguém, no seu perfeito juízo, pode torcer o nariz a montantes desta grandeza.

Nenhum ministro encontraria argumentos convincentes para justificar um veto a um programa de atração de investimento estrangeiro que, em dois anos, pudesse mimar Portugal com dez prémios do Euromilhões. Pelo menos em tese.

Porque, na prática, ninguém ainda sabe o que realmente lucrou a economia e o Estado portugueses com o negócio dos vistos dourados. A brochura diz-nos 1 075 749 834,75 de euros, mas as dúvidas agora suscitadas pela investigação ao esquema de angariação de clientes e alegado recebimento de luvas aconselham-nos a ter cautela. Que, muito provavelmente, para além dos casos escrutinados pelas autoridades, possa ter havido inúmeras réplicas de sobrevalorização de imóveis, os quais, em vez de darem "x" de lucro à nação, deram apenas "y".

Exemplo: escritura-se um imóvel por 500 mil euros (quantia mínima para se obter um visto), mas paga-se apenas 300 mil euros ao vendedor, que na verdade somente recebe 200 mil, dado que os restantes 100 mil euros foram para comissões. No fim da linha, resulta de "ganho oficial" para o Estado os tais 500 mil euros. Embora a vantagem real tenha sido menor. O cliente, esse, sai sempre a ganhar: pagou menos e leva no bolso o visto que lhe permitirá circular livremente por 30 países do espaço Schengen.

O dinheiro foi sempre o argumento inatacável na defesa do programa de concessão de vistos. Consensualizou-se o princípio segundo o qual o Estado até podia fechar os olhos a currículos menos transparentes de potenciais investidores. Porque o sacrifício era patriótico. Ora, acontece que não foi assim.

E eis que batemos de frente com a grande perversão desta embrulhada: o Estado foi conscientemente enganado pelo próprio Estado. E, na pior das hipóteses, sem sinais evidentes de que tirou grandes contrapartidas da situação a que se sujeitou. Caindo, no limite, por terra, além da seriedade do projeto, a sua derradeira missão: oxigenar a economia com capital.

Até lá, até sabermos com rigor o que entrou nas nossas contas, e em que circunstâncias, não era avisado suspender o programa? Ou acham que a demissão de Miguel Macedo é suficiente para devolver a moral ao Estado?

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