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Opinião

Não hesitarás diante da bazuca

Não hesitarás diante da bazuca

Nisto António Costa está carregadinho de razão: o país não pode dar-se ao luxo de hesitar quando os céus de Bruxelas se abrirem para encharcar a economia de dinheiro fresco. Muito dinheiro fresco.

Mas uma coisa é o sentido de responsabilidade que se exige aos decisores políticos, outra é a aceitação de uma cultura de unanimidade entre partidos, setores de atividade e parceiros sociais perante os caminhos apontados pelo Governo para melhor se aproveitar o tiro da bazuca comunitária. O multidisciplinar plano Costa Silva dá para todos os gostos e carteiras e até por isso dispensamos que nos acenem com uma religião socialista do desenvolvimento.

Mas o primeiro-ministro tem razões para estar preocupado. E não me refiro à histórica incapacidade lusitana de definir prioridades coletivas, mas sim à agravada dificuldade de os partidos se entenderem, nas diferenças, em torno de um objetivo comum. Tratando-se este de um plano para várias legislaturas (o Programa de Recuperação e Resiliência não carece de aprovação parlamentar), o grau de dificuldade aumenta exponencialmente.

Daí António Costa carregar na tecla: sem estabilidade política não há proclamações nem milagres que nos valham. A responsabilidade é deste Governo - e será a ele que vamos cobrar, no futuro, eventuais escolhas erradas ou agradecer tiros certeiros -, mas as perdas potenciais atingirão toda a gente. Ainda assim, não tenhamos a ilusão de que, em dez anos, vamos despir Portugal das suas vestes habituais e desencantar um país novo. Porque isso nem inventado.

Obviamente que a urgência de executarmos rápido e bem uma quantidade brutal de ajudas complica a equação. Compreende-se, por isso, que os partidos não queiram passar um cheque em branco para um período tão longo de tempo, mas esse equilíbrio terá de ser encontrado em algum momento. Porque a partir de abril do próximo ano, aquilo que enviarmos para Bruxelas deixará de ser um programa do Governo do PS para passar a ser um compromisso do Estado português.

*Diretor-adjunto

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