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Nós não somos a Grécia 2.0

Nós não somos a Grécia 2.0

"Nós não somos a Grécia" foi, em tempos, o hino alternativo à "A Portuguesa". Em vez de "heróis do mar, nobre povo", entoávamos "nação valente que quer ser como a Irlanda". Há alguns meses, o "nós não somos a Grécia" queria dizer que fugíamos como o Diabo da cruz do contágio negativo que a economia helénica disseminava pelos mercados financeiros. Queria dizer que éramos o menino bem comportado da Europa, o país cumpridor. E fomos, na verdade. Há que reconhecê-lo. Portugal não faliu. Abençoados impostos.

Agora, o "nós não somos a Grécia" é-nos apresentado numa versão melhorada, 2.0, que carreia outras virtudes, igualmente prosaicas, entre as quais pontua o ideal de que discutir formas alternativas de desenvolvimento de um país e de sustentabilidade das contas públicas só poderia redundar no cenário pré-apocalíptico em que estão transformadas as ruas de Atenas e arredores.

Enquanto a Grécia estende a mão a Bruxelas, agitando a bandeira negra de uma crise humanitária para tentar reabrir a torneira dos euros, Portugal forra os cofres do Estado com divisas. Agora, pense bem: em que posição gostaria de estar? Esfomeado sem dinheiro no bolso? Ou orgulhoso com dinheiro nos cofres públicos?

Sinteticamente, foi esta a pergunta que o primeiro-ministro fez aos portugueses, num discurso, por vezes emotivo, em que saiu em defesa da ministra das Finanças, que se havia congratulado por termos os "cofres cheios". "O que é que significou para os portugueses, nestes anos, ter os cofres vazios? Custou muito desemprego, muita medida difícil", afiançou Pedro Passos Coelho, esquecendo-se, no calor do momento, de que ter os "cofres cheios" continua a custar medidas difíceis e muito desemprego. O país está melhor, as pessoas nem por isso? Outra vez?

Liderando um Governo que parece resistir a tudo (Tecnoforma, dívidas à Segurança Social, lista VIP, etc..), está visto que Passos vai cavalgar esta onda, sobretudo porque, com o passar dos dias, o fantasma da Grécia, que tantas vezes resgata para a oratória, começa a ganhar, de novo, feições assustadoras.

Passos quer ganhar as eleições e até se dá ao luxo de dizer que, para já, não está preocupado em apresentar programa. Na outra margem deste rio que corre incerto, está António Costa. Com muita vontade de ser alternativa, mas ainda longe de o ser. Também ele sem um programa, embora incomodado com os bolsos vazios da nação. Um e outro, porém, partilham um trunfo: nestas eleições, já vai haver dinheiro para distribuir. Era útil que ambos começassem a explicar ao país quando e de que forma a benesse dada pelos contribuintes vai começar a chegar às suas (deles, contribuintes...) contas bancárias.

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