A abrir

Nove semanas e meia

Se está a imaginar Kim Basinger e Mickey Rourke encaixados e molhados no fundo de uma escadaria, pode parar. O filme é outro. Em 1986, as nove semanas e meia mais importantes do Mundo foram, de facto, as que deram nome a um dos dramas eróticos mais badalados da sétima arte. Trinta anos depois, as nove semanas e meia de 2016 também dizem respeito aos Estados Unidos da América (EUA) e ao Mundo, mas foram expurgadas do erotismo, restando apenas o drama que povoa os bons thrillers políticos.

Faltam, contando com a imprevisibilidade dos dias atribulados que se seguirão a 8 de novembro, sensivelmente nove semanas e meia para ficarmos a saber se a mais poderosa nação do planeta é, de facto, a terra de todas as oportunidades. Se os EUA são tão democráticos ao ponto de elegerem um candidato presidencial como (confesso que já não sei como classificá-lo) Donald Trump. Depois de um longo período de "normalidade", em que a candidata democrata, Hillary Clinton, parecia ter solidificado a sua supremacia nas sondagens - após repetidos estudos de opinião que ou a colocavam empatada ou atrás do republicano -, eis que os alarmes voltaram a soar, com a publicação, esta terça-feira, de uma sondagem da CNN em que Trump surge, nas intenções de voto, dois pontos à frente daquela que pode vir a tornar-se na primeira mulher a sentar-se no cadeirão da Casa Branca.

É certo que a amostra é residual e que uma outra sondagem do jornal "The Washington Post", que usou uma base bem mais expressiva e centrada no colégio eleitoral (que é quem determina o vencedor), indicia um resultado contrário, mas serve isto para nos recordar que o risco de acordarmos antes do Natal com Donald Trump a chefiar o Mundo não é ficção científica.

Há dias, o ator Will Smith, entrevistado pelo humorista Jimmy Fallon, descreveu, com romantismo, o ambiente político extremado na América. Disse ele: o país está a descer tão fundo, até um lugar tão sombrio, que essa viagem acabará por funcionar como uma catarse coletiva que, no final, redundará numa espécie de purificação. Ou seja: Trump irá espalhar-se ao comprido. Smith integra o eleitorado instruído, não caucasiano, que vota massivamente na antiga primeira-dama. Mas a América não é só Nova Iorque ou Los Angeles. E se há coisa que Trump tem provado é que o eleitorado já está cansado de discursos rendilhados que não querem dizer nada.

É dessa fonte, de resto, que bebem os populistas à Esquerda e à Direita, na América e na Europa. Quando a economia manda na política, com os resultados conhecidos, e quando os moderados são vistos ora como fracos, ora como órfãos de ideologia, criam-se as condições ideais para o triunfo dos idiotas, perigosos especialistas em desembainhar convicções num campo de batalha em que a seriedade política se mede pela estridência da forma. Tiquetaque, tiquetaque.

* EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG