Opinião

O cerco e o circo

Impor um cerco sanitário ao Porto, segunda cidade do país, motor propulsor da segunda região do país, seria absurdo do ponto de vista das liberdades individuais e do impacto desastroso numa realidade económica e social que ainda assim vai resistindo com tenacidade à pandemia, mas seria sobretudo impensável do ponto de vista da aplicação prática.

Donde resulta incompreensível a forma leviana como a possibilidade foi aflorada pela diretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Felizmente que em meia dúzia de horas a discussão atingiu um pico dramático e estatelou-se no empedrado da cidade granítica. Só podia: porque as razões aduzidas pela DGS (nenhumas) eram facilmente contraditadas pelo senso-comum. Às óbvias (a pendularidade numa malha urbana que se serve e se alimenta dos concelhos limítrofes, a impossibilidade de aceder a dois hospitais centrais, etc.), acrescentaria outras, igualmente do domínio da lógica e da logística: em que partes da Circunvalação e da VCI se delimitava o cerco? E o metro vindo de Gaia, parava a meio da Ponte Luís I, antes da fronteira? A fugacidade com que esta tolice nasceu e morreu não deve, porém, deixar de nos inquietar. Porque associado a este disparate veio outro: o de percebermos que o número de casos de infetados no Porto estava insuflado em dobro. No domingo, eram 417 doentes com Covid-19, na segunda-feira somavam-se 941. Ontem, apenas 462.

Não exigir super-homens ao comando em tempos de mares nunca dantes navegados é uma coisa, permitir falhas de orientação e, sobretudo, de comunicação destas é outra, totalmente dispensável. Num estado de sobressalto pessoal e de emergência coletiva, é das expectativas e da forma como estas são geridas que se orienta o pulsar do país. Não queremos ter de preocupar-nos com coisas com as quais não precisamos de estar preocupados.

*Diretor-adjunto

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