Opinião

O cérebro de Angela Merkel

O cérebro de Angela Merkel

Imagino-a numa sala ampla, à média luz, uma mesa imensa no centro da divisão, forrada com um mapa da Europa do século XIX e uma lupa sobre Portugal. "Como estão a portar-se os primitivos, senhor ministro?". Wolfgang Schäuble, regedor das finanças, responde lesto à chanceler: "Continuam a gastar à tripa- -forra [o que deve soar terrivelmente em Alemão] e parecem não ter aprendido nada com os erros". Angela Merkel franze o sobrolho, rumina um pensamento profundo e anuncia: "Vou metê-los na ordem".E assim fez, nesta semana. O que muito nos divertiu. Então, é assim: Portugal, de acordo com a timoneira germânica, tem licenciados a mais. E presta muito pouca atenção ao chamado ensino vocacional. Ora, qual é a perversão de tanta ousadia civilizacional, de acordo com a madrasta da austeridade? A "produção" de mais licenciados não se traduziu na diminuição do número de desempregados. "Temos de nos afastar", por isso, desta política expansionista no Superior. Porquê? "De outra forma, não seremos capazes de persuadir países como Portugal e Espanha, que têm muitos licenciados", enfatizou Merkel. Do que a Europa precisa mesmo é de analfabetos empregados mas honrados, em vez de licenciados armados ao pingarelho que falam duas ou mais línguas e almejam ganhar - sacrilégio! - mil euros por mês.

Há, todavia, um detalhe. Angela Merkel enganou-se. De acordo com os dados mais recentes do Eurostat, relativos ao ano passado, Portugal tem 17,6% de licenciados, enquanto a Alemanha atinge uma percentagem de 25,1%. No conjunto dos 28 países da União Europeia, a taxa situava-se nos 25,3%, portanto, bem acima do desempenho das nossas universidades.

Para alguém que impôs uma estratégia de sobrevivência da moeda única de máquina calculadora no coldre, não deixa de ser risível que não saiba fazer umas simples contas de somar e de subtrair. Mas, cara Angela, se entender, posso aconselhar-lhe um bom professor de Matemática que chegou a ministro da Educação. Aqui mesmo, neste país de licenciados.

Porém, como nas demais intervenções da Grande Líder, é preciso saber ler nas entrelinhas. Descodificar o verdadeiro alcance das mensagens. Acho que consegui: Portugal tem, de facto, licenciados a mais. Mas, lamentavelmente, estão quase todos a trabalhar fora de território nacional. Em países subdesenvolvidos da Europa que buscam desesperadamente cérebros qualificados, como... a Alemanha. Sim, porque este é, a par do Reino Unido e da Suíça, um dos principais destinos que mais licenciados lusitanos absorvem.

Era isto que a chanceler queria dizer. Que Portugal tem licenciados a mais, mas na Alemanha. E que isso dá má imagem da todo-poderosa nação germânica. Ainda assim, não deixa de ser uma mal-agradecida. Pagamos a educação dos licenciados portugueses com os impostos dos portugueses, mas depois eles vão trabalhar para Berlim ou Frankfurt. A fuga dos cérebros pode ser uma dor de cabeça para alguns países. Mas a ausência de cérebro costuma ser mais perigosa.

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